Júlio Furtado: Lições das escolas de samba

Aperfeiçoar os acertos e aprender com os erros é atitude fundamental a qualquer educador convicto

Por O Dia

Rio - Sempre fiquei magnetizado diante dos desfiles das escolas de samba. Muito além das cores, dos brilhos e das luzes, o que me impressiona é o exemplo de trabalho em grupo e a devoção dos componentes pela escola. Este ano tive o prazer de ser acompanhado na Marquês de Sapucaí pela minha grande mestra e mentora Thereza Penna Firme, que sempre me inspirou no sentido de observar o cotidiano e construir metáforas tendo a Educação como foco. É de sua autoria as mais interessantes analogias que conheço, que tornam seu discurso claro e direto para todos os educadores. Compartilho aqui alguns deles.

Para refletir sobre a pouca atenção que, em geral, os colégios dão ao ato de planejar, Thereza lembra que as escolas de samba planejam um ano inteiro para realizar três horas de apresentação: uma hora de concentração, uma hora e meia de desfile e meia hora de dispersão. Além disso, revisam insistentemente os planos, sempre visando a facilitar os trabalhos para atingir os objetivos. A escola, ao contrário, planeja três dias para realizar 800 horas de atividade e muito raramente revê o planejado ao longo do período de realização.

A lição que fica é a necessidade de estarmos constantemente planejando, revendo, testando e aperfeiçoando as estratégias de aprendizagem. Isso nos remete à necessidade de permanente postura reflexiva que envolve pensar insistentemente sobre o nosso fazer. Aperfeiçoar os acertos e aprender com os erros é atitude fundamental a qualquer educador convicto.

Outra lição inesquecível vem de conversa com crianças da ala infantil de uma agremiação enquanto esperavam para entrar na Avenida. Thereza perguntou a diferença entre a escola em que estudavam e aquela escola em que aguardavam para desfilar. Num misto de ansiedade e convicção, as crianças respondiam que a escola em que estudavam tinha lições para fazer, e a escola de samba, não. Foram provocados pelo argumento de que aprender o samba-enredo e os passos da ala eram uma espécie de lição de casa; logo, as duas escolas eram iguais. Num súbito insight, uma menina bastante atenta respondeu que a principal diferença entre as escolas é que a escola de samba tem emoção. Pois é. Fica a lição de levarmos mais emoção para as nossas escolas.

Julio Furtado é professor e escritor

Últimas de _legado_Opinião