Marcus Tavares: O Rio é Olímpico, mas a nossa realidade não é

É hora de festa, mas não há o que comemorar no dia a dia das três esferas governamentais

Por O Dia

E eis que estamos vivendo o tão aguardado sonho olímpico. Quem diria que este país e esta cidade tão cheios de contrastes, desigualdades e contrassensos pudessem um dia sediar tal evento em sua magnitude. É inacreditável. Na verdade, é preciso se beliscar para acreditar em tal fato. Acho que há coisas que só acontecem no Brasil. Não tenho dúvidas: será uma linda Olimpíada e Paralimpíada. Vamos nos emocionar, vibrar. Haverá muita festa, encontros e imagens de tirar o fôlego com os atletas (e suas histórias) de vários cantos do planeta. O povo daqui vai retribuir como sabe: com cordialidade e muito sorriso.

Mas não somos ingênuos. O tão falado legado será somente esse: as boas lembranças e momentos. E ponto final. As obras de mobilidade urbana, as intervenções paisagísticas e as demais estruturas criadas — com dinheiro público em boa parte — são promessas antigas, e mais do que isso: responsabilidade e obrigação de gestores públicos comprometidos com os cidadãos. Os projetos não deveriam estar a reboque ou depender de uma Olimpíada para finalmente saírem do papel.

Não é à toa que a imprensa nacional e internacional já faz piada dizendo que estamos nas Olimpíadas do ‘jeitinho’. Que vergonha e lástima sermos sempre lembrados e rotulados desta forma. E o pior: por vezes, nós próprios nos vangloriamos desta pseudoqualidade. ‘Jeitinho’ de um país/estado mergulhado numa crise histórica político-econômica, mas que maquia a cidade para receber os Jogos. Não preciso dizer da triste e caótica realidade dos hospitais, das escolas (algumas sem merenda), da segurança pública (o que vai acontecer após as Olimpíadas?).

Não torço contra a Olimpíada, contra a festa, muito menos contra os atletas. Mas não há o que comemorar no dia a dia das três esferas governamentais. Temos grandes desafios e quiçá lutas árduas a enfrentar por conta da crise político-econômica que nossos governantes — queiramos ou não — nos colocaram. Por ora, o pão e o circo comandam. Mas logo logo termina, e o pano fecha. E a realidade aparece.

Marcus Tavares é professor e jornalista

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