Ricardo Cravo Albin: Madame Carioca na Olimpíada

Não, não temos do que reclamar se nossa Cidade-Mulher

Por O Dia

Estimulante — mais que isso, desafiador — observar-se o espírito do Rio por estes dias, antes da Olimpíada, e agora já a pleno vapor. Nossa Cidade-Mulher, como era de se esperar, assumiu uma de suas muitas faces. Exatamente a mais risonha e catita, ostentando lábios de rubi (como se dizia em canções dos anos 50), faces rubras de rouge, onde rugas se escondem (ardilosamente), cabelos recém-oxigenados e muito bem penteados, pescoço livre de papadas. Em resumo, um rosto dadivoso em cima de corpo delgado e (razoavelmente) bem conservado, até porque suas belezas naturais (tronco, mãos e pés) ninguém consegue destruir.

Não, não temos do que reclamar se nossa Cidade-Mulher (aliás, o poeta Noel Rosa assim a chamou em samba antológico) se torne apetitosa e possa ser desejada pelos milhares de turistas e atletas. Melhor (e obrigatório) ser vendida com toda a maquiagem possível do que ser apresentada como decrépita, cavilosa e, o pior, capaz de assaltar o primeiro turista que lhe passe à frente, ou lhe dar um tiro à testa.

Não, ainda bem que os clientes estrangeiros de nossa dama recém-operada estão podendo se locomover com segurança por metrô até a Barra, por VLTs, por pistas exclusivas. Além de protegidos por milhares de guardas providenciados por ela para manter razoável paz em seus terreiros.

Podem também os sortudos hóspedes ter o desfrute de novos quintais, como o Porto recuperado, com museus e exposições a equipá-los culturalmente.

Mas nossa Madame, nem tão velha assim com seus ainda breves 450 anos, não pôde controlar os malfeitos e a falta de gestão de sua própria casa. Bem, é verdade que conseguiu preparar refeições convenientes para os hóspedes temporários, com instalações olímpicas regadas a bom azeite e perfumosos temperos. É verdade que Madame lhes deu muitos quartos de novos hotéis e se esmerou para nutrir seus pupilos com passeios e regalos turísticos.

Mas, oh! horror, a desatenta senhora não deu a menor atenção a suas cisternas, entregando aos visitantes águas emporcalhadas pelos dejetos de suas próprias privadas. Logo eles, os espelhos d’água, os pertences mais valiosos da Casa, que são a Baía da Guanabara, a Lagoa Rodrigo de Freitas e suas longilíneas irmãs da Barra.

Feio, muito feio, ter prometido de pés juntos aos agora hóspedes promessas em vão, como a limpeza das águas de sua casa, feitas com juras de Aves-Marias e Pais-Nossos, desde que conquistou a visita dos noivos há oito anos. Lembro-me da trêfega mulher em Pequim quando piscava os olhos acintosamente com cílios postiços, em meio a requebros lascivos e cruzar de coxas indecente, a assegurar o que não cumpriu, ou seja, a limpeza para fazer navegar sua mais confortável cama de amor em águas limpas e quase potáveis, plasmando futuros prazeres e belezas para os noivos. E para ela mesma , seu principal legado.

Ricardo Cravo Albin é presidente do Inst. Cultural Cravo Albin

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