Através do esporte, em busca de paz e dignidade

Jovens de comunidades com UPPs se engajam em projeto coordenado por policiais

Por O Dia

Rio - Através da luta inspirada em artes marciais japonesas — que completa este ano um século de existência no Brasil —, meninos e meninas de comunidades pacificadas encontraram o caminho para uma vida mais digna. Nos tatames montados por policiais de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), talentos da nova geração do jiu-jítsu começam a despontar em projetos esportivos que também estreitam a relação entre moradores e militares.

PMs que atuam nas UPPs são os instrutores das criançasMaíra Coelho / Agência O Dia

Há quatro anos, era impossível imaginar que pais da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, deixariam seus filhos participarem de aulas promovidas por policiais da UPP Quadras. Com o tempo, 120 pequenos moradores já integram o quadro de futuros lutadores que, pelas mãos de três militares e um voluntário, aprendem técnicas de jiu-jítsu, muay thai e taekwondo.

O sucesso foi tanto, que há outras 120 crianças na fila de espera por uma vaga no treinamento. “São nove meses de projeto e só vejo melhoras no comportamento e rendimento escolar deles. Tiramos as crianças da rua e da ociosidade, mostrando que é possível vencer com esforço”, destaca o soldado Fernando Pasche.

E as histórias de superação e sucesso se multiplicam. Guilherme Hilário, 15 anos, ostenta com orgulho a faixa amarela na luta e o título da Copa Jacarepaguá. Há um ano ele passava boa parte do tempo com amigos pelas ruas, acumulando notas baixas. “É um incentivo. Eu não fazia nada e agora, sei que tenho um futuro pela frente. Quero ser médico”, sonha.

Estímulo e histórico de superação

Com 12 anos, Jaílson Maurício é outro destaque. Campeão estadual da categoria infantil, ele foi um dos premiados na última sexta-feira com quimono novinho em folha, forma que os PMs encontraram para incentivar os meninos a não desistir do esporte.

O exemplo para a garotada seguir a trilha do sucesso vem de realidade próxima à que eles vivem. Atual bicampeão do torneio internacional U.S. Open, o cabo Luiz Carlos Chagas também sentiu na pele as dificuldades de uma infância sem perspectivas. O PM comprou 20 novos quimonos para as crianças que se destacaram nos treinos. “Quando comecei, não tinha dinheiro nem para treinar. A luta me ensinou a ter disciplina, responsabilidade e auto-estima, e foi assim que consegui trabalhar na polícia.”

Um modelo para a garotada

Dos tatames do Batan para o mundo. Aos 18 anos de idade, mas com a experiência de uma vida inteira de superação, Márcio André Barbosa é o orgulho dos policiais treinadores e inspiração para outros meninos que também querem vencer através do esporte. Foi por incentivo da mãe, que faleceu há um mês, que o garoto se interessou pelo jiu-jitsu. Depois de treinar em academias, passou a lutar com os PMs da UPP Batan e a ajudá-los na instrução das crianças.

Sem nenhum patrocínio nem dinheiro no bolso, mas com muita determinação, o faixa roxa Márcio conquistou os títulos europeu e mundial na categoria pena, ano passado, e ainda morou quatro meses no Texas (EUA), onde aprimorou as técnicas com lutadores experientes e aprendeu inglês.

“É muito difícil, mas dá para seguir. Sou campeão, mas muitas vezes não tenho dinheiro para participar das competições. É esse exemplo de força que quero passar porque, se não fosse o esporte, hoje estaria preso ou morto, como a maioria dos meus amigos de infância. Meu destino está traçado: quero vencer”, conta Márcio, que disputou torneio no Japão.

Equipe UPP Rio disputa torneios

Além da construção dos centros de lutas em outros locais, a união de policiais e moradores de várias comunidades motivou a criação da equipe UPP Rio, que disputa torneios oficiais de jiu-jítsu.

A integração acabou com antigas rivalidades entre comunidades e ainda promoveu a troca de experiência entre os atletas. O grupo foi campeão no circuito estadual no ano passado e já briga por novas conquistas no torneio 2013.

“Trouxemos apoio de empresas para patrocinar 130 crianças e jovens nas competições. A perspectiva é de um futuro próspero”, avalia o presidente da Federação de Jiu-Jítsu Desportivo do Rio, Rogério Gavazza.

As aulas se multiplicam também pelas comunidades do Vidigal e da Providência, que também participam da equipe UPP Rio.

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