Clima de pizza e tumulto na abertura da CPI dos Ônibus

Presidente da comissão nem votou a favor da criação. Outros eleitos são da base do governo

Por O Dia

Rio - A primeira sessão da tão reivindicada CPI dos Ônibus deixou sinais de que pode acabar em ‘pizza’ na Câmara e está sendo tratada por alguns como golpe. Quem estava lá para acompanhar não gostou. A escolha de Chiquinho Brazão (PMDB) — que não assinou a criação da comissão — para presidir a investigação foi o primeiro sintoma estranho. A audiência começou tensa no Salão Nobre. Outros aliados da base integram a comissão, como Professor Uóston (PMDB) — relator —, Jorginho da SOS (PMDB) e Renato Moura (PTC).

Brazão foi eleito em votação de menos de um minuto, após Eliomar Coelho (Psol), que propôs a CPI, se candidatar. Ao saber do resultado, manifestantes ocuparam a Câmara. Mas encontraram resistência. “A Casa é do povo, o povo quer entrar”, gritavam e pediam a entrada de mais gente. Mais de 200 pessoas tinham sido barradas.

Eliomar Coelho pediu a suspensão por 20 minutos, para a entrada das pessoas. Professor Uóston não aceitou e foi vaiado. “Vocês permitem que alguém, que não seja do agrado de vocês, dê uma explicação?”, questionou ele, que recebeu “não”, em coro.

Prevendo a manobra que iria ocorrer para não que não assumisse a presidência, Eliomar disse que deixaria a CPI, mas voltou atrás. Os vereadores da comissão passaram o microfone rapidamente um para o outro e definiram o nome de Brazão. Seguiram para a sala da presidência da Casa, onde acabaram sitiados.

Após tumulto e muita força, manifestantes conseguiram abrir o portão e entrar. Um grupo pichou o gabinete de Brazão no sétimo andar. Outro grupo foi para o plenário. Eles exigiam a anulação da sessão; a saída de Brazão, Jorginho da SOS e Renato Moura e Professor Uóston da CPI; nomeação de Eliomar para a presidência e acesso do público a todas as sessões.

Justiça nega pedido de reintegração

O Tribunal de Justiça indeferiu, ontem à noite, pedido de liminar para reintegração de posse da Câmara. A ação tinha como objetivo obrigar os ativistas a saírem do prédio por estarem promovendo a depredação do imóvel, que é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Escolha de Chiquinho Brazão para presidir CPI dos Ônibus gera revolta na CâmaraSeverino Silva / Agência O Dia

Na sentença, a juíza Margaret de Olivaes, da 6ª Vara de Fazenda Pública, diz que ‘não há dúvida de que em uma democracia representativa as Casas Legislativas são as casas do povo (...) Assim, não há qualquer impedimento para o ingresso e permanência do cidadão nas Casas Legislativas’.

Trancados na sala da presidência, à espera da escolta dos policiais

Com receio dos manifestantes que ocuparam a Câmara, os vereadores que estavam reunidos na presidência da Casa — entre eles, o Professor Uóston e Chiquinho Brazão —, para discutir o resultado da eleição da CPI, decidiram só sair do local com a Polícia Militar. Com isso, eles ficaram trancados na sala por quase duas horas. Ainda tentaram uma negociação, recebendo quatro representantes do movimento. Mas não houve acordo.

Questionado se não estava constrangido com a situação, o vereador Uóston foi enfático: “Existiria constrangimento se fosse o clamor do povo, mas quais são os segmentos que estão lá fora representados por essas pessoas? O povo ou a militância do Psol?”. Além dele, Brazão teve o gabinete invadido e pichado. Quando a Polícia Militar chegou, os ativistas já tinham ocupado o plenário. As luzes chegaram a ser apagadas e houve orientação para que os funcionários deixassem a Casa.

O promotor Flávio Bonazza, da 1ª Promotoria de Tutela Coletiva da Capital, quer esclarecimentos do presidente da Câmara, Jorge Felippe (PMDB), sobre a votação que elegeu Brazão e o por quê de a reunião ter ocorrido a “portões fechados”, uma vez que a Câmara divulgou a data da audiência em seu site e no Diário Oficial. Bonazza, que esteve no local, deu cinco dias para Felippe responder o ofício.

Secretário será ouvido na audiência de terça-feira

A próxima reunião será na terça-feira. O presidente da Casa, Jorge Felippe (PMDB), prometeu receber os manifestantes neste dia. Na audiência, serão ouvidos o ex-secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, o atual secretário, Carlos Roberto Osório, e o presidente da Comissão de Licitação.

O grupo que ocupou a Câmara expulsaram um policial militar do Serviço Reservado, que teria sido visto usando uniforme de funcionários da limpeza.

Revoltados com o que chamavam de “mídia burguesa”, os manifestantes retiraram, por duas vezes, jornalistas do plenário. Dois rapazes ficaram na porta fazendo a função de ‘seguranças’, intimidando cinegrafistas e conferindo credenciais.

'Você quer me encarar? Vai querer entrar numa comigo? Então vem!'

Uma grande confusão se formou na porta da Câmara quando o deputado federal Chico Alencar (Psol) foi ameaçado por um PM identificado como Rômulo. O parlamentar, que falava na rua ao microfone, viu policiais agindo com truculência para expulsar manifestantes que acompanhavam seu discurso da sacada do segundo andar da Casa, e questionou o fundamento legal para expulsar as pessoas.

Um PM, identificado por Belitardo, respondeu que cumpria ordens, mas se negou a dizer quem havia determinado a retirada. Alencar começou então a questionar os PMs, perguntando quem estava no comando, mas era ignorado por todos, até que um dos policiais o chamou para briga “Vai encarar? Então vem!”, disse o PM. “Se eles ameaçam um deputado, imagina com os manifestantes”, disse Alencar.

Reportagens de Alessandro Lo-Bianco, Christina Nascimento, Daniel Pereira, Flávio Araújo, Hilka Telles, João Antônio Barros, Marcello Víctor e Raphael Bittencourt

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