Clube Mackenzie, no Méier, supera crise e faz 100 anos

Para dar a volta por cima, bailes funk foram banidos e famílias voltaram à cena

Por O Dia

Rio - Nascido e criado no Méier, um velho conhecido dos cariocas acaba de completar cem anos, com a alma renovada e cheio de planos para o futuro. Fundado em 15 de março de 1914, o Sport Club Mackenzie, na Rua Dias da Cruz, no Méier, celebra o aniversário do centenário na companhia de seus 14 mil associados. Uma vitória e tanto para este clube familiar e berço de grandes atletas que, na década de 1990, com menos de 200 sócios abnegados, quase fechou as portas.

Dos tradicionais concursos de miss aos shows de grandes estrelas, como Roberto Carlos e Alcione, o clube Mackenzie viveu dias de glória em seu auge, nos anos 1960. A guinada na programação, com o surgimento dos primeiros bailes funk, mudou a cara do clube. As famílias pararam de frequentar o espaço e os jovens tomaram conta do pedaço.

Dalto Mathias%2C vice-presidente%2C e Antônio de Carvalho%2C gerente geral do clube%2C na sala de troféusBruno de Lima / Agência O Dia

Acostumados às colunas sociais e às páginas esportivas, de repente o Mackenzie passou a estampar as seções policiais. “Os bailes funk sempre terminavam em confusão na porta do clube com a chegada da polícia”, recorda o advogado e vice-presidente Dalto Mathias Corrêa, de 69 anos, 35 como sócio.

A grande virada aconteceu em 1995, quando o atual presidente, Eugênio Bastos, foi empossado no cargo. Apesar do faturamento com os bailes funk, a diretoria decidiu que era hora de chamar as famílias de volta e por um ponto final no ‘batidão’. Bastos chegou a receber ameaças de morte, mas se manteve firme. “Ele sabia que sem as famílias não haveria clube. No fim de semana, havia muitos jovens, mas nos outros dias era um cemitério”, lembra o gerente geral do clube, Antônio Ferreira, 66, o Toninho.

O maior desafio foi enfrentar a falta de dinheiro e as dívidas que se acumulavam. “O clube tinha fama de caloteiro e nenhum crédito na praça. Ali eu vi onde tinha me metido”, conta o presidente Eugênio Bastos.

Aos poucos, o Mackenzie foi atraindo novos sócios com uma programação para toda a família. Por uma mensalidade simbólica, os sócios e dependentes passaram a ter acesso a todas as atividades do clube, como natação, bailes e escolinhas de esportes.

A meta da atual diretoria é retomar o time profissional de basquete, que no passado de glórias chegou a disputar campeonatos com equipes grandes do Rio, como a do Vasco da Gama. De todas as dependências do Sport Club Mackenzie, a que enche de orgulho os associados é a sala de troféus das conquistas dos atletas da casa, principalmente nas disputas de futebol de salão masculino, feminino e basquete. Desta última modalidade, saíram atletas como Alexey Carvalho que vestiu o uniforme da seleção brasileira.

No Mackenzie, também foram revelados jogadores como o meio-campo Luiz Philipe Lima, o Muralha, atualmente um dos titulares do futebol profissional do Flamengo, e os gêmeos Rafael e Fábio, que foram para o time inglês do Manchester United.

Shows de Alcione e concursos de miss%3A anos de ouro do clubeReprodução

No gosto das famílias

?O professor Nathalino Lemos, de 53 anos, guarda com orgulho até hoje a carteirinha de sócio-atleta campeão de futsal do Mackenzie. Criado no clube desde garoto, o morador do Méier não troca por nada os encontros com os amigos de longa data à beira da piscina. “O Mackenzie é o nosso ponto de referência. É onde revejo os amigos de infância. Muitos foram morar longe, mas é aqui que a gente se reúne para lembrar dos tempos antigos e jogar conversa fora”, diz.

Localizado em uma região sem muitas opções de lazer, o Sport Club Mackenzie é uma alternativa para famílias do grande Méier. “É um lugar onde a gente pode vir com os filhos que não tem perigo e baderna. E com a vantagem de poder praticar vários esportes”, aprova a moradora do Engenho de Dentro, Rachel Gayani, 35 anos, acompanhada do filho Gabriel, 10.

Nathalino exibe com orgulho a carteira de sócio-atleta de futsal. Pelo clube%2C ele foi campeão cariocaBruno de Lima / Agência O Dia

Como ela, a assistente social aposentada, Sônia Santos, a Bibi, 60, criou os filhos no Mackenzie, e hoje leva os três netos para o clube. “É muito melhor vir para cá do que enfrentar horas de trânsito até chegar na Barra da Tijuca”, conta a moradora que é sócia-proprietária há 20 anos.

Para muitos o Sport Club Mackenzie se tornou a segunda casa. Um dos funcionários mais antigos do lugar, o operador de piscina, Joaquim Bonifácio da Silva, o Maninho, 75, não pensa em descansar da função e se aposentar do clube. “O presidente pegou o bagaço da laranja e deu uma levantada. Hoje está muito melhor. É como uma segunda família para mim”, reconhece Maninho, lembrado por muitos como o primeiro professor de natação.

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