Há um ano, começava onda de protestos na cidade

Manifestação no dia 6 de junho de 2013 contra aumento das passagens foi marco de período de reivindicações

Por O Dia

Rio - ?‘Não é por centavos. São direitos.” Há um ano, essas frases estamparam cartazes e foram repetidas tantas vezes em coros de protesto que se tornaram o lema e o símbolo das manifestações de rua. O aumento nas tarifas de ônibus de diversas capitais deu a largada para a mobilização de grupos estudantis e movimentos sociais a partir do dia 6 de junho. Era apenas o começo.

Protesto contra aumento de tarifas se transformou em reivindicações de vários grupos no Rio e em outras cidades. No dia 17 de junho reuniu 100 milErnesto Carriço / Agência O Dia

No Rio, o chamado “primeiro grande ato contra o aumento” foi convocado pelo Facebook e a concentração foi na Candelária, no fim da tarde. Segundo os próprios manifestantes que lá estavam, o protesto começou com cerca de 300 pessoas. O grupo saiu em caminhada e, no auge da manifestação, o número não chegou a dois mil integrantes. Nem os mais otimistas podiam imaginar que em menos de duas semanas eles seriam 100 mil e todo o país faria protestos com adesão popular semelhante.

Entender o que aconteceu e o motivo não é tarefa fácil.Desde a campanha pelo impeachment do ex-presidente Collor, nos anos 1990, a população brasileira não lotava as ruas daquele jeito. Mas há algumas pistas. Para os pesquisadores, a população dava sinais de descontentamento há tempos. “Nesse momento havia um distanciamento entre os tomadores de decisão e as pessoas que sofrem as decisões: sociedade e representantes”, analisa o cientista social Dario de Sousa e Silva Filho. “Não havia um alvo preferencial definido. Como também não havia uma liderança. A ideia era mostrar um basta”.

O aumento da tarifa foi apenas o estopim. Entre inúmeras reclamações, a queixa maior, na verdade, tinha relação com uma crise de representatividade. O sociólogo Paulo Baía lembra que enquanto as manifestações cresciam, as pautas de reivindicação também se multiplicavam de maneira difusa. “Na rua, as questões eram múltiplas e contraditórias. A favor da Copa do Mundo e contra. Pró-aborto e contra. Mas havia um sentimento que unia essas pessoas: o funcionamento das instituições”, explicou.

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Os dois ressaltaram que, como em outros países, a internet e as redes sociais foram decisivos para a mobilização. “As pessoas podem se mobilizar rapidamente pelas redes sociais. Mas sem profundidade”, aponta Silva Filho. “Alguém usa uma imagem e isso é imediatamente suficiente para pessoas tomarem uma posição. Movimento social envolve debate”. Para Baía, passaram a existir dois espaços públicos: um urbano e outro virtual. “Em junho houve um casamento entre os dois, gerando novas relações sociais”, observa.

?Estudantes do Rio se inspiraram na conquista dos colegas do Sul?

Guilherme Morais, 25 anos, estuda Geografia na UFRJ. É filho de sindicalistas, mas andava desanimado com a política. Tudo mudou no fim de maio do ano passado, no Congresso da União Nacional dos Estudantes. Lá, ele e os colegas de diversos estados trocaram experiências e uma recente conquista dos estudantes gaúchos motivou o encontro: depois de intensas manifestações em abril, a Prefeitura de Porto Alegre revogou o aumento da tarifa.

“Era muito pessimista em relação à sociedade. A troca de experiência no congresso motivou o engajamento político, já que os gaúchos conseguiram resultados. Quando a gente retornou, o ato contra o aumento já estava marcado ”, contou Morais. 

Dia 20 de junho%2C a maior manifestação do Rio tomou a Presidente Vargas e o entorno%3A 1 milhão de pessoasJoão Laet / Agência O Dia

Na semana seguinte, ele participou do protesto e sentiu na pele a violência que persiste em protestos. Na tentativa de liberar a pista, policiais e manifestantes entraram em choque. Morais diz que correu para a Central e no caminho foi atingido por uma bala de borracha. “Pegou bem na articulação e tive que tomar quatro pontos”, afirmou. Mal sabia, mas se tornava assim uma das primeiras vítimas da violência.

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