Polícia aponta brasileiro como elo com a máfia dos ingressos

Cambista agia no Carnaval do Rio e atuou na Copa das Confederações, em 2013

Por O Dia

Rio - A máfia dos ingressos tinha um importante integrante no grupo, capaz de ligar uma quadrilha com fornecedores infiltrados na Fifa aos cambistas no entorno dos estádios. O contato foi descoberto pela polícia três meses antes da Copa do Mundo, quando agentes percorreram o entorno do Maracanã, às vésperas da final do Campeonato Carioca.

Os policiais, que se passaram por torcedores, pediram a um cambista um contato para adquirir 30 ingressos de jogos do Mundial. O vendedor disse que não tinha condições de atendê-los e passou a eles o celular de Antônio Henrique de Paula Jorge, de 33 anos, apontado pelas investigações como o principal contato no país do francês com origem argelina Mohamadou Lamine Fofana, acusado de chefiar o esquema.

“Ele era o principal cambista brasileiro no esquema”, disse o delegado Fábio Barucke, da 18ª DP (Praça da Bandeira).

Henrique (ao fundo)%2C principal contato no país do esquema%2C chegou a morar com Ronaldinho GaúchoReprodução Internet

Henrique, como era chamado entre os comparsas, vendia ingressos em jogos do Brasileirão e grandes eventos. Agentes apreenderam em sua casa até um crachá da Liesa, que dava acesso a áreas restritas da Sapucaí, onde agia. De acordo com a investigação, Henrique também vendeu entradas durante a Copa das Confederações no país, em 2013.

Ele dizia aos clientes que agia há quatro Copas do Mundo, como forma de passar “credibilidade”. Oferecia entradas de jogos da primeira fase do Mundial, no Maracanã, por R$ 1 mil e chegou a tentar sacar R$ 177 mil em dinheiro de uma agência bancária na Ilha do Governador para comprar ingressos mais caros de Fofana.

Em uma conversa telefônica interceptada pela Justiça, às 13h47 do dia 2 de junho, ironizou da desconfiança do cliente em ser pego com ingresso em outro nome: “Eles (Fifa) podem falar o que for. Eles falaram até que cambista não pode vender”.

Assim como Fofana, Henrique também tinha ligações no mundo do futebol. Ex-jogador profissional, ele chegou a morar com Ronaldinho Gaúcho em Paris, quando o craque jogava no PSG, um dos principais clubes na França. Agentes da 18ª DP encontraram uma fotografia dos dois juntos. Na imagem, no laptop apreendido na casa do cambista, Ronaldinho estava com o filho de Henrique no colo.

Segundo as investigações, o cambista viajava para outras cidades-sede da Copa em ‘comissões’, com Alexandre Marino Vieira e Marcelo Pavão, que também fazem parte da quadrilha. Agora, divide cela com Vieira na Penitenciária Bandeira Stampa, em Bangu.

GRAVAÇÕES TELEFÔNICAS

30 DE MAIO

Duas semanas antes da abertura da Copa, Antônio Henrique Jorge já articulava a venda de ingressos para jogos. Entre 29 e 30 de maio, conversou com quatro clientes.

Comprador - E aí? Tem ou não tem o ingresso?
Henrique - Juninho. Tenho, tenho. Vou fazer. É porque estou fora do Rio.
Comprador - Vai ter seis a R$ 1,2 mil? Vai ter?
Henrique - Vou. Só que tem que explicar pro cara que não existe seis juntos.

2 DE JUNHO

Comprador - Tu disse que ia ver se conseguia Bélgica e Rússia, porra! Lembra?
Henrique - Eu tenho, R$ 1 mil cada.
Comprador - Mil? Tu disse que mil era da Argentina, porra!
Henrique - Não, qualquer jogo do Maracanã é mil.
Comprador - Ah, é? Tu disse que Bélgica e Rússia ia ser mais em conta, pô!
Henrique - Vou fazer oitocentos pra tu (...).
Comprador - Deixa eu te falar. A pessoa que compra ingresso não pode transferir não, né?
Henrique - Pode, pô.
Comprador - Mas a mulher comprou e a Fifa disse que não pode transferir. Tem que devolver o ingresso pra Fifa.
Henrique - Mas quer transferir pra quê?
Comprador - Ela não quer mais ir, mané. Colega minha.
Henrique - E por que você não compra?
Comprador - Eu vou comprar como? Tá no nome dela o ingresso. Comprou de meia (meia entrada), não pode transferir.
Henrique - Pode até tá no nome do Papa, pô. Nada a ver isso.
Comprador - Mas chega na hora, eles vão olhar, Henrique.
Henrique - Ah, vai! Já fui em quatro Copas do Mundo. Pelo amor de Deus, hein?
Comprador - Não vão olhar?
Henrique - Porra, vai olhar o quê? Então vai começar a olhar agora, porra! Setenta mil pessoas vão começar a olhar o nome e identidade, porra!
Comprador - Eles falaram que vai ter que apresentar carteira de meia lá na hora.
Henrique - Eles podem falar o que for. Falaram até que cambista não pode vender! E aí?

Pagode e sexo em meio aos negócios

As gravações da polícia mostram que Antônio Henrique de Paula Jorge e seus comparsas costumavam ostentar. E tinham o hábito de contratar garotas de programa de luxo quando viajavam para negociar ingressos em outras cidades que sediavam jogos da Copa do Mundo. Também frequentavam rodas de pagode no Rio de Janeiro. E chegaram a ser flagrados por agentes infiltrados, que usavam câmeras e microcâmeras escondidas para seguir o grupo.

Nas investigações%2C a polícia registrou Henrique (à direita)%2C negociando ingressos num bar em JacarepaguáReprodução

Henrique tem outras duas anotações criminais. Acusado de furto, foi condenado a dois anos em regime aberto em 2010, pela 1ª Vara Criminal de Madureira. E ainda responde inquérito por homicídio culposo e embriaguez ao volante em uma colisão que causou a morte de outro cambista, que estava com ele no veículo, em acidente ocorrido no ano passado.

Defesa de Whelan no STJ

Ontem à tarde, a defesa do inglês Raymond Whelan entrou com pedido de liberdade provisória junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Apontado como o principal fornecedor da máfia dos ingressos, o inglês está preso preventivamente desde segunda-feira, quando decidiu se entregar à Justiça.

Ex-diretor executivo da Match Services, empresa ligada à Fifa que tinha a exclusividade na venda de entradas aos jogos da Copa, Whelan foi flagrado em escutas telefônicas autorizadas pela Justiça enquanto negociava ingressos com o francês Mohamadou Lamine Fofana.

O empresário Luiz Vianna, flagrado em escutas com Lamine Fofana, prestou depoimento na 18ª DP. Ele admitiu ter ligado para pedir ingressos a amigos. Mas disse desconher que a prática era ilegal.

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