Samba do Trabalhador ainda resiste no Clube Renascença

Comandada por Moacyr Luz, roda das segundas-feiras agora é em versão acústica

Por O Dia

Rio - Antes de crescer e reunir mais de mil pessoas a cada edição, o ‘Samba do Trabalhador’ começou como uma reunião para amigos músicos relaxarem após os fins de semana de trabalho, carregando apenas instrumentos acústicos. Proibida de usar equipamento de som por conta de decisão judicial na semana passada, a roda que muda a rotina das segundas-feiras no Clube Renascença, em Vila Isabel teve que voltar às suas raízes para continuar existindo. Foi o que aconteceu nesta segunda-feira.

Sentado ao centro da mesa, o sambista Moacyr Luz se esforçava para cantar um pouco mais alto que o habitual. “As amígdalas pedem clemência”, disse. Porém, ele agradeceu a energia do público. “Só de ver esse carinho com que o povo está cantando, a vontade de manter a chama acesa faz valer a pena. Essa é a nossa resistência”, afirmou o sambista, que escolheu repertório com músicas mais conhecidas para o público cantar junto aos músicos.

Roda de samba acústica animada no Renascença. Sem microfone%2C Moacyr Luz reclamou%2C com bom humor%3A “As amígdalas pedem clemência”André Mourão / Agência O Dia

E deu certo. Frequentadora do lugar há cinco anos, a propagandista Verônica Rocha, de 49 anos, integrava ocoro. “A gente vem prestigiar e se diverte com ou sem caixa de som. Mas a roda cresceu muito e acaba sacrificando a voz do músico”, disse. Para a aposentada Sandra Macena, de 61 anos, a decisão judicial deveria ser repensada: “O ambiente é familiar e a roda sempre acaba rigorosamente às 22h”.

Fundador do ‘Encontro de Bambas’, que acontece no mesmo clube ao sábados, Jorge Roberto ‘Meco’ lamentou a proibição. “Trazemos muitos convidados que vêm apresentar seus sambas novos, então precisamos do equipamento de som”, afirmou. “O clube é uma resistência do samba. Aqui sempre vai se respirar a cultura negra.”

Recurso pode reverter decisão judicial

O Renascença entrou nesta segunda com um recurso na Justiça para que possa voltar a usar os equipamentos sonoros. Segundo José Evangelista, presidente em exercício do clube, a decisão judicial foi tomada com base em uma ação movida pelo Ministério Público em 1988. “Na época a música ia até às 4h. Hoje a realidade do clube é outra, temos barreiras acústicas, os horários são apropriados”, disse.

De acordo com o Daniel Silva, vice-presidente do Renascença , o clube também pode adotar mudanças. “A gente quer tudo certo, legalizado. Mesmo resolvendo esta situação, vamos adotar outra postura, como chamar um perito em som para que não se extrapolem os decibéis”, afirmou.

Para a contadora Márcia Vieira, de 34 anos, que mora na Rua Barão de São Francisco, onde fica o clube, as atividades musicais não causam grandes transtornos. “Acaba cedo e vários dos meus vizinhos gostam e frequentam o samba. E é bom porque fica mais policiado durante a segunda-feira. Não somos inimigos do evento”, disse a moradora. As atividades esportivas, culturais e sociais que acontecem no Renascença permanecem inalteradas.

Últimas de Rio De Janeiro