Carros de PMs do batalhão do Méier, que custam R$ 700 mil, serão investigados

Frota de luxo está na mira das corregedorias da corporação

Por O Dia

Rio - Dez carros de luxo, que estavam estacionados no pátio do 3º BPM (Méier) serão alvos de investigação das corregedoria Geral Unificada (CGU) e Interna da corporação. Os automóveis, que juntos custam mais de R$ 700 mil (R$ 70 mil em média cada um) chamaram a atenção de agentes da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança (Seseg) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público, na segunda-feira, no momento da prisão do capitão Diego Soares Peixoto, de 30 anos.

O capitão é acusado de integrar quadrilha que cobrava propina e começou a ser desarticulada com a Operação Amigos S/A. Os veículos, cujos valores seriam incompatíveis com os salários dos PMs, foram fotografados e seus donos, identificados. De acordo com nota da Secretaria de Segurança Pública, uma sindicância patrimonial será aberta nesta quarta-feira.

Hyundai IX35 2.0 de PeixotoReprodução

Os donos terão que comprovar a origem dos automóveis. Entre os carros de alto padrão estão o Hyundai IX35 2.0, placa LQI-7668, do próprio capitão Peixoto, que tem um salário líquido de R$ 5.029,84 como chefe da P-3 (Serviço Operacional) do batalhão, conforme consta no site da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão, e comprou o utilitário por R$ 91,2 mil à vista.

A transação ocorreu quando Diego ainda era lotado no 14º BPM (Bangu). Dentro do Hyundai, foram apreendidos R$ 2 mil. Modelos de alto padrão, como Tucson, Honda Civic e caminhonete S-10, também foram fotografados pelos agentes. Sétimo oficial suspeito de envolvimento na quadrilha armada e especializada em corrupção e recebimento de propinas na região de Bangu, que agora tem 28 presos, Peixoto atuou com os majores Nilton João dos Prazeres Neto e Carlos Alexandre de Jesus Lucas, ambos presos, além do coronel Alexandre Fontenelle, na Operação Amigos S/A.

Na segunda-feira também foi preso em casa, em Austin, Nova Iguaçu, o sargento Romildo Rodrigues Silva, 39, primo de Fontenelle. Celulares e munições foram apreendidos no local. O sargento, lotado no Comando de Operações Especiais (COE) — unidade que dá ordens e direciona os batalhões de Operações Especiais (Bope) e Choque, entre outros —, junto com Fontelle, tinha sido levado pelo primo do 41º BPM (Irajá) para o 14º BPM (Bangu). A CGU e a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) também investigam denúncias de suposta ligação de PMs do 3º BPM com milicianos que agem em Quintino.

Celulares e munições apreendidos na casa de RomildoReprodução

X., vizinho do BPM: ‘O silêncio impera’

Os PMs supostamente envolvidos no esquema de corrupção e propinas gostavam de aparentar poder em carrões. É o caso do major Nilton João dos Prazeres Neto, que foi chefe da P-3 do 14º BPM e tido como braço direito de Fontenelle, por exemplo. Segundo apuração da CGU, ele tinha um Citröen Pallas, de aproximadamente R$ 65 mil. Posteriormente, trocou o veículo por outro mais possante e caro: um Dodge Journey, avaliado em mais de R$ 120 mil.

De acordo com um vizinho do 3º BPM, que preferiu não se identificar, segundo ele com medo de represálias, a movimentação de carros de luxo que entram e saem da unidade, sempre surpreendeu os moradores da Rua Lucídio Lago. “É um movimento frenético e diário. Inclusive à noite. Mas ninguém tem coragem de questionar nada. O silêncio impera”, comentou X., de 51 anos, comparando o pátio do batalhão a “uma concessionária luxuosa”.

Ação prendeu 24 policiais

O capitão Diego e o sargento Romildo são acusados, junto com outros colegas, de receber pagamento de mototaxistas, empresas (principalmente transportadoras de pessoas e cargas), instituições financeiras e ambulantes no bairro de Bangu e adjacências, na Zona Oeste. Segundo um policial que colabora com as investigações, o sargento Romildo fazia parte da ronda bancária e tinha como principal função arrecadar semanalmente propina de até R$ 360 de cada uma das agências do bairro.

A Operação Amigos S.A. foi deflagrada em 15 de setembro. Só no 14º BPM (Bangu) foram presos 24 PMs, contando com seis oficiais do batalhão. Com eles, também foi preso um mototaxista que era responsável por recolher propinas das vítimas em diversos bairros para o grupo. Um dos presos, que foi libertado por aceitar o benefício da delação premiada, afirmou que o Estado-Maior da PM recebia repasses de R$ 15 mil de cada batalhão por semana.

Os 28 PMs alvos da Amigos S.A. vão responder pelo crime de associação criminosa armada. A pena pode variar de dois a seis anos de reclusão. Se condenados, os policiais militares também poderão ser obrigados a pagar indenização por danos morais à Polícia Militar pelo dano causado à imagem da corporação. Eles ainda serão responsabilizados pelos crimes de extorsão cometidos, aproveitando o uso de suas funções como servidores públicos, que serão apurados pela Auditoria de Justiça Militar.

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