Beltrame cancela folgas e bota nas ruas mais PMs do Bope e Choque

Helicópteros e blindados também vão ajudar a reforçar segurança

Por O Dia

Rio - Um dia após ataques de traficantes espalharem medo na Região Metropolitana, a resposta da Segurança Pública contra a afronta dos bandidos será colocar todas as suas forças nas ruas. As operações de repressão aos crimes e de reforço nas áreas de conflitos, que seriam realizadas durante a eleição de domingo, foram antecipadas para hoje e ganharam aumento de policiais no seu plano inicial. Enquanto as tropas de elite da PM ocupam as regiões críticas, com o dobro de agentes, caberá à Polícia Civil fazer blitzes nas principais vias e abordar suspeitos.

A determinação foi do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, que se reuniu ontem com o governador Luiz Fernando Pezão e a cúpula das polícias. As medidas visam frear os ataques em comunidades do Rio, Niterói, São Gonçalo e Baixada. Na madrugada de ontem, novos confrontos assustaram moradores da Rocinha e do Complexo do Alemão.

O secretário de Segurança José Mariano Beltrame e o chefe da Polícia Civil Fernando Veloso participaram da reunião onde discutiram os últimos episódios de violênciaCarlos Moraes / Agência O Dia

Às vésperas das eleições, o secretário afirmou que há ‘predisposição a rompantes de violência’ de traficantes.

“Em 2007, seis pessoas barbarizaram a cidade, botaram fogo em ônibus com pessoas vivas dentro e metralharam delegacias. Em 2010, o tráfico espalhou focos de incêndio. Não posso dizer que (a violência) está relacionada às eleições, mas façam um período de reflexão”, sugeriu.

As equipes que trabalham diariamente nos batalhões de Operações Especiais (Bope) e de Choque foram dobradas, com o cancelamento das folgas até domingo. Com isso, serão vasculhadas áreas consideradas prioridades pela Secretaria de Segurança, devido à ação de criminosos, como os complexos do Caju, Penha, Alemão, Mangueira, Rocinha e Vidigal, além de comunidades ainda não pacificadas, como as de Niterói, São Gonçalo, Baixada e Água Santa, esta na Zona Norte do Rio.

Paralelamente a varredura por terra em busca de criminosos — com apoio de blindados e motos —, helicópteros da PM farão mapeamento aéreo, enviando informações e imagens em tempo real para a cúpula da PM, a Inteligência da corporação e a Subsecretaria de Inteligência da Segurança Pública.

Já a Civil vai para as ruas com a Operação Repressão Qualificada, a fim de coibir roubos de carros e motos por bandidos em fuga ou que estejam circulando entre favelas. As blitzes serão montadas em pontos da Região Metropolitana, seguindo indicadores de criminalidade de cada área. A ação inclui a participação de delegacias especializadas e distritais, coordenadas pela Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA).

Beltrame não descarta pedir ajuda à Força Nacional

O secretário de Segurança José Mariano Beltrame não descartou a possibilidade de pedir ajuda à Força Nacional de Segurança no combate à onda de violência na cidade, apesar de negar que esta medida seja necessária no momento.

O governador Luiz Fernando Pezão participou da reunião no CICC onde discutiu com a cúpula de Segurança os últimos episódios de violência no Rio e em NiteróiCarlos Moraes / Agência O Dia

Ele afirmou ainda que os ataques nas proximidades do Morro do Cavalão, em Niterói, quarta-feira, aconteceram por ordem de Reinaldo Medeiros Inácio, o Cadar, preso na penitenciária Gabriel Ferreira Castilho, no Complexo de Gericinó. Moradores e criminosos desceram a favela e atearam fogo em um ônibus na área nobre da cidade, além de colocar barricadas nas ruas. Os crimes seriam em represália às mortes de dois jovens em confronto com a polícia. Cadar, de 49 anos, acusado de ordenar os ataques, deve ser enviado para um presídio federal nos próximos dias.

Na madrugada de ontem, novo confronto entre policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha e traficantes tirou o sono de moradores. Ninguém ficou ferido.

Em três dias, cinco pessoas morreram em áreas pacificadas. Quarta-feira à tarde, a Avenida Brasil chegou a ser fechada por blindados e militares do Exército, após tiroteio entre criminosos rivais do Complexo da Maré. Há duas semanas, traficantes tentam invadir aquela região para retomar o controle da venda de drogas.

Ontem, a cabeça de um homem não identificado foi encontrada em um balde na Avenida Brasil, próximo à passarela 4, altura do Parque Alegria, no Caju. Uma denúncia levou PMs ao local onde estava a cabeça. A Divisão de Homicídios realizou perícia no local, está ouvindo testemunhas e procura imagens que possam esclarecer o caso.

Ataques nas eleições já são tradição

Especialistas analisam a disparada da violência nas vésperas das eleições não só como um fenômeno, mas como uma tradição arraigada no Rio. Para eles, a audácia do tráfico aumenta nesse período principalmente para desestabilizar o poder do Estado e reafirmar a existência de um poder paralelo à democracia das urnas. “É uma forma metafórica de dizer: 'Estou aqui, não se esqueçam que eu existo'”, diz a coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, Silvia Ramos.

“Nessa época, há um retraimento do poder público, que evita tomar ações que possam produzir comoção pública e gerar críticas por parte dos candidatos da oposição. Por isso, os conflitos (entre traficantes) causam resultados mais violentos nesse período”, comenta o sociólogo e ex-capitão do Bope Paulo Storani.

Em 2002, ações em 84 bairros

Ataques a transportes públicos, tiroteios, arrastões e brigas de facções estão entre as ações de bandidos registradas em períodos que antecedem as eleições do Rio. Em 2010, menos de uma semana antes da reeleição de Sérgio Cabral, criminosos promoveram quatro arrastões, no Jacarezinho, na Pavuna, na Estrada do Joá e em Nova Iguaçu, em menos de 24 horas.

No pleito de 2002, uma das mais ousadas ações orquestradas pelo tráfico para espalhar medo no período eleitoral atingiu 84 bairros da Região Metropolitana na semana das eleições. Em um feriado imposto por criminosos, lojas, escolas e unidades de saúde precisaram fechar as portas. No dia seguinte, ruas de algumas partes da cidades amanheceram cobertas por panfletos, supostamente escritos pelo Comando Vermelho, que descartavam motivação política.

Dois dias antes do pleito de 2004, manifestantes incendiaram três ônibus em protesto contra a guerra de facções rivais pelo controle do tráfico de drogas na Favela de Vigário Geral. No dia da votação, traficantes ainda ordenaram o fechamento de duas zonas eleitorais ao meio-dia.

Abrigo na casa de morador

Durante o confronto no Complexo do Alemão ontem, alguns policiais tiveram que se abrigar dentro da casa de um morador. Encurralados, pediram socorro por rádios comunicadores, afirmando que os traficantes ameaçavam explodir o imóvel com granadas. Nenhum militar ficou ferido. Moradores contam que o terror durou mais de uma hora até o resgate dos PMs. Na noite de terça-feira, policiais do Bope também trocaram tiros com grupo de sete traficantes na Favela Vila Cruzeiro, na Penha.

Os conflitos entre PMs e traficantes do Morro do Alemão já resultaram na morte de seis PMs da região desde o início do ano, como a do comandante da UPP Nova Brasília, capitão Uanderson Manoel da Silva, de 34 anos, que morreu mês passado com um tiro no peito. Na localidade, conforme O DIA publicou com exclusividade, a base da UPP Nova Brasília fica dentro do terreno da Escona Estadual Caic Theophilo de Souza Pinto, onde estudam 820 alunos. Segundo funcionários, alunos e professores, o clima de tensão diário prejudica o ensino, sem contar com as constantes suspensão de aulas por conta de tiroteios. O Sepe denunciou a situação ao Ministério Público.

ALEMÃO: SUSPEITO MORRE, E PM ACHA CADERNO DE CONTABILIDADE DO TRÁFICO

Cadernos com a contabilidade do tráfico de drogas na Nova Brasília, no Complexo do Alemão, que mostram despesas de bandidos, inclusive com pagamentos de enterros de supostos comparsas mortos em confrontos com a polícia, foram apreendidos por soldados da UPP local na madrugada de ontem — junto com uma pistola 9mm e certa quantidade de maconha, cocaína e crack —, depois de intenso tiroteio.

O confronto começou por volta da 1h30, quando pelo menos 20 homens atacaram a tiros a base da UPP, na Rua Canitar. No tiroteio, um suspeito foi morto e outro ficou ferido.

A apreensão das anotações, segundo investigações da 45ª DP (Morro do Alemão), mostra que as quadrilhas do complexo estão organizados como na década passada, mesmo a região tendo atualmente quatro Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Somente uma das folhas de um dos cadernos, por exemplo, datada de 20 de setembro, discrimina gastos com advogados, bocas de fumo, identificadas com nomes de times de futebol, e aluguel de armas. Na mesma folha, há a menção do pagamento de R$ 2,5 mil para enterro de homem conhecido como Lorão. Ele seria um dos chefes do tráfico da localidade e teria sido morto em junho por traficantes rivais.

As apreensões ocorreram pouco depois da 1h30, quando cerca de 20 traficantes se aproximaram da base da UPP da Rua Canitar. Houve intensa troca de tiros com a polícia. A população ficou em pânico e muitos não puderam voltar para casa.

“Somente no início da manhã eu pude ir para casa. Descansei só duas horas e tive que voltar para o trabalho”, lamentou o copeiro X., de 42 anos, que mora na Rua Canitar e trabalha num restaurante no Centro.

Dez PMs chegaram a ficar encurralados no beco conhecido como 24 Horas durante o atentado e foram resgatados por 30 agentes do Bope e um blindado da corporação.

Parte dos policiais perseguiu os criminosos, que deixaram o material apreendido para trás. No conflito Adriano Souza da Silva, 20 anos, que teria disparado contra os policiais, morreu, e Paulo César da Silva Oliveira, de 22, foi baleado e levado para o Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. A polícia diz que o jovem tem ligação com a quadrilha local: “A base da UPP foi atingida com muitos disparos de pistola 9 milímetros A situação ficou muito tensa. Muitos estavam escondidos na mata, becos e vielas”, disse um policial que participou do resgate de colegas.

Reportagem de Athos Moura, Diego Valdevino, Francisco Edson Alves, Gabriel Sabóia, Tamyres Matos e Vania Cunha

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