Polícia já ouviu 11 para apurar de onde partiu tiro que matou mulher no Caju

Corpo que seria de comparsa morto pelo PM chegou a cruzar com caixão de vítima em cemitério

Por O Dia

Rio - Familiares de Célia Maria Santos Peixoto, de 59 anos, responsabilizam a Polícia Militar pelo tiro que matou a doméstica na tarde de segunda-feira, em frente ao Cemitério São Francisco Xavier, no Caju. Acompanhada de um casal de filhos, Célia se dirigia ao túmulo do neto (Alexandro Lima, que morreu há pouco mais de um ano de acidente de moto) quando uma bala perdida de fuzil 7.62 atravessou uma árvore e lhe desfigurou o rosto, após tiroteio em policiais .

Na hora do crime, seis agentes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Caju trocavam tiros com traficantes que estavam num suposto carro roubado. No muro do cemitério, peritos identificaram 14 marcas de tiros. A PM abriu inquérito, e, de acordo com o titular da Divisão de Homicídios (DH), Rivaldo Barbosa, 11 pessoas já prestaram depoimento. “As armas dos PMs foram apreendidas para perícia”, disse Rivaldo.

Cortejo com o corpo de Kleber (à esq.)%2C que também teria sido morto na ação%2C cruza com o caixão de Célia (à dir.)Fernando Souza / Agência O Dia

Na ação, Cláudio da Silva, de 42, foi ferido na barriga e sobreviveu. Um outro homem, identificado como Kleber, segundo Rivaldo Barbosa, foi morto com tiro na cabeça e seu corpo abandonado por comparsas na Favela Parque Boa Esperança. A DH investiga se ele seria Kleber dos Reis Virgílio, enterrado também no Cemitério do Caju, poucos minutos antes de Célia. Parentes dele negam. Às 16h15, enquanto o corpo da doméstica era velado ao ar livre, o cortejo de Kleber, que saiu da capela D, a 50 metros, cruzou com o caixão dela.

“Perdi metade de minha alma, graças a mais uma ação desastrosa da PM. A corporação demonstrou mais uma vez que não está preparada para agir em plena luz de dia e em ruas movimentadas”, criticou o marido da vítima, o eletricista Messias Marques, de 54. 

Filha: ‘É muito sofrimento’

Célia foi enterrada próximo ao túmulo do neto Alexandro, que, segundo parentes, era, para ela, o xodó dos seis netos. “É muito sofrimento. Perdi meu filho (Alexandro) de forma cruel há um ano e agora minha mãe por causa de uma estupidez da PM”, desabafou Monique Peixoto, que estava com a mãe e o irmão, Márcio Peixoto, no momento da tragédia.

'O tiro saiu da arma dos PMs%2C eu vi'%2C disse filha de vítima baleada em frente ao Cemitério do CajuCarlos Moraes / Agência O Dia

“Tentei salvá-la, mas não consegui”, murmurava Márcio a todo momento, consolado por amigos no velório. A família de Célia veio da Bahia há 40 anos. “É uma família bela e respeitada”, comentou Manoel de Souza, cunhado de Célia. Ela trabalhava na casa da dona de uma rede de supermercados famosa.

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