Estiagem no Rio de Janeiro faz nordestino relembrar ‘fuga’ do Ceará

Cerca de 90% dos trabalhadores da Feira dos Nordestinos migraram para escapar seca e enfrentam falta d’água em casa

Por O Dia

Rio - Diante de um dos lagos vazios da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão — um dos cartões postais aquáticos do Rio castigados pela seca —, o cearense Helismar Leite, de 51 anos, se assusta: “Meus Deus...Essas rachaduras no fundo dão medo.Nunca pensei em ver esse cenário na Região Sudeste, muito menos aqui no Rio. Me trazem recordações ruins”, comenta, desolado.

Presidente da Feira de São Cristóvão, Helismar justifica sua apreensão, lembrando de sua cidade natal, Pentecoste, no árido Norte do Ceará, de onde saiu há 39 anos com os pais e oito irmãos, fugindo justamente da eterna estiagem sertaneja que a região enfrenta.

Cenário de desolação do vaqueiro Joaquim Rodrigues Filomeno Marcos Evangelista em açude em Assaré%2C no CearáSeverino Silva / Arquivo Agência O Dia

“Sem água para manter o gado , tivemos que vender toda a criação e vir para o Rio atrás de dias melhores. Hoje, o drama da falta de chuvas começa a nos assombrar aqui também”, lamenta Helismar, morador da Tijuca, na Zona Norte, que começou a construir a vida na Capital carioca como entregador de mercadorias de um supermercado e hoje é dono de duas distribuidoras de bebidas e duas padarias.

Helismar conta que nas 700 lojas do Centro de Tradições Nordestinas, como é conhecida a Feira de São Cristóvão, trabalham 10 mil imigrantes. “Noventa por cento deles vieram para o Rio fugindo da seca. Agora, muitos deles, principalmente os que moram em comunidades mais altas, já vivem o drama da escassez de água em suas casas”, diz.

Foto acima se assemelha ao que o cerearense Helismar Leite viu no lago da Quinta da Boa Vista%2C que está secoMárcio Mercante / Arquivo Agência O Dia

Sentido com parentes e amigos que ainda vivem em Pentescoste, município com pouco mais de 35 mil habitantes e um dos que estão em situação de calamidade pública por falta de chuvas desde o ano passado, Helismar reuniu empresários amigos do Rio e do Ceará e levou, em dezembro, além de 42 toneladas de alimentos e 21 mil peças de roupas, água em galões para os conterrâneos. “Foi uma festa que há muito tempo não se via. Espero, sinceramente, que a situação não chegue a ficar tão crítica por essas bandas (Sudeste). Se meus parentes virem minha foto no fundo do lago da Quinta da Boa Vista, vão achar que é montagem”, brinca.

A paisagem causticante presenciada ontem por Helismar, lembra a vivida pelo sertanejo Filomeno Marcos Evangelista, o Dadá, fotografado por Serverino Silva, de ao DIA, em julho de 2013, em Assaré (CE). Lá, Dadá é obrigado a cumprir o mesmo ritual todos os anos, de levar o gado para outras cidades para salva-los da sede mortal. “Se estivesse vivendo ainda no Ceará, certamente também estaria enfrentando essa situação. Mas os nordestinos são guerreiros”.

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