Menor confessa: 'Meu sonho é sair do crime, mas o dinheiro é fácil'

M., de 17 anos, apreendido por agentes da DHBF é acusado de ser o autor de tiros que mataram o policial Cid Jackson Silva

Por O Dia

Rio - "Meu sonho é sair do crime, mas o dinheiro é fácil e eu preciso. Sou criminoso, roubo carros em Mesquita e Nova Iguaçu para entregar em favelas como a Cidade Alta e o Chapadão. A mulher e o filho do policial gritaram muito, poupamos eles, mas, infelizmente, tivemos que fazer o serviço. Não tinha jeito.’

A confissão é de M., de 17 anos, apreendido segunda-feira por agentes da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF). Ele é acusado de ser o autor dos disparos que mataram o policial civil Cid Jackson Silva, que, após ser atingido diversas vezes pelas costas, ainda recebeu um tiro de misericórdia na cabeça. Também foi capturado Alex Sandro Ozório Silva, de 19, primo do adolescente, que estava com a pistola do policial.

M. é conduzido por agente para prestar depoimento%3A ‘Entrei na vida do crime aos 15 anos. O dinheiro é fácil’Uanderson Fernandes / Agência O Dia

Com tatuagem no peito em homenagem à mãe, o menor garantiu que nunca matou ninguém.

“Peguei a arma dele (Cid), que ia sacar, e o Zeca (nome de suspeito apontado por M.) atirou. Peguei a arma e a chave do carro. A arma do crime foi pega no Chapadão. É um oitão”, disse, referindo-se a um revólver calibre 38. “Entrei na vida crime aos 15 anos”, entregou.

“A vítima não reagiu ao assalto. Foi morta porque sua identidade de policial civil foi descoberta pelos assaltantes. Temos 95% de certezas que foi o menor quem atirou. Testemunhas disseram ter sido ele que pegou a arma da cintura do agente. Tem características violentas. Em depoimento, porém, negou ter atirado”, afirmou o delegado-titular da DHBF, Fábio Salvadoretti.

O policial, lotado na Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), foi executado sábado, em Mesquita, na Baixada. A mulher e o filho do inspetor estavam no carro quando os quatro bandidos anunciaram o assalto. Eles não se feriram.

“Todos do grupo são menores. Um já foi identificado e temos pista de outros dois. O primo dele não participou do crime”, destacou Fábio.

Além dos relatos das testemunhas, imagens de câmeras de segurança da rua onde ocorreu o crime ajudaram à polícia na identificação dos acusados. No vídeo, eles aparecem caminhando, sem camisa, momentos antes de executarem o policial.

O carro de Cid foi recuperado domingo pela polícia. O veículo estava próximo à casa do menor apreendido, no bairro Vila Jurandir, em São João de Meriti. Impressões digitais colhidas confirmaram a identidade dele.

Por volta das 17h de ontem, cabisbaixo e com as mãos algemadas para trás, M. foi levado à Vara da Infância de Juventude e do Idoso para ser ouvido.

Congresso volta a estudar penas mais severas

A repercussão da violência contra policiais no Rio, onde só este ano 13 agentes — nove militares e quatro civis — foram assassinados por bandidos, vai desengavetar pelo menos oito projetos de lei na Câmara Federal e no Senado, para tornar mais rígidas punições para crimes severos. Entre elas, está a relacionada à morte de policiais.

Nesta quarta-feira haverá um ato público à tarde em Brasília, segundo o deputado federal Subtenente Luiz Gonzaga Ribeiro (PDT-MG), pela morte em serviço de pelo menos 1,7 mil profissionais em segurança no país nos últimos cinco anos.

Uma das principais propostas está contida no PL 8.258/14, de autoria de Luiz Gonzaga, que aumenta em um terço a pena para os homicídios dolosos (quando há intenção) contra funcionários públicos e enquadra esse tipo de crime na lista dos crimes hediondos. Atualmente, o Código Penal prevê a majoração em um terço somente para homicídios dolosos contra menores de 14 anos e maiores de 60 anos.

“O homicídio contra o agente público demonstra a ousadia do criminoso, praticada contra um responsável pela difusão da paz pública e do bem estar social”, justifica Gonzaga.

Chefe de Polícia exige empenho total na elucidação dos homicídios

O chefe da Polícia Civil, delegado Fernando Veloso, determinou que o Departamento de Homicídios — responsável pelas três delegacias do estado que investigam esse tipo de crime — apure a morte dos quatro policiais mortes no fim de semana.

A unidade será inaugurada esta semana, conforme O DIA noticiou, e será chefiada pelo atual titular da Divisão de Homicídios da capital, delegado Rivaldo Barbosa. “Vamos desencadear nos próximos dias ações coordenadas pelas Divisões de Homicídios em várias comunidades”, disse Veloso.

Sobre a morte do inspetor Thiago Thomé de Deus, cuja arma teria falhado durante o ataque dos criminosos, conforme o jornal ‘Extra’ publicou ontem, Veloso afirmou que determinou perícia para confirmar se realmente houve falha no armamento. “Uma perícia técnica vai começar a ser feita amanhã (hoje). Instrutores de tiros vão acompanhar essa perícia, para estabelecer o que teria determinado a suposta pane”.

Veloso quer que os agentes que usam o mesmo armamento de Thiago façam teste de arma.

Aumento de 200% em quatro anos

Outro projeto em discussão na Câmara Federal é o referente a crimes envolvendo menores de 18 anos. O Projeto de Lei 8.077/14, do presidente da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, deputado Pauderney Avelino (DEM/AM), aumenta a punição em até 50% para autores que incentivam e cooptam menores para ações criminosas.

No Rio de Janeiro, a quantidade de menores apreendidos nos últimos quatro anos em ações criminosas aumentou em 200%. De 2.806 jovens recolhidos em 2010, o número saltou para 8.380 no ano passado.

“Com a crescente participação de adolescentes aliciados por quadrilhas em crimes de roubo, especialmente em latrocínio (roubo seguido de morte), é urgente que se mude a lei”, defende Avelino.

Outro PL que deverá ser acelerado é o 8.136/2014 (apensado ao PL 3.481/2012), que aguarda parecer da Comissão de Constituição e Justiça. O projeto visa o aumento da pena de reclusão para até dez anos e multa de até cinco vezes o valor roubado e de danos materiais provocados por explosivos.

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