'Me senti a pior pessoa do mundo', diz motociclista agredido e detido por PMs

Entregador de pizza foi detido na Lapa, depois de andar na contramão; abordagem policial foi criticada por testemunhas e, segundo criminalista, houve abuso de autoridade

Por O Dia

Rio - A abordagem policial — seguida de detenção — a um entregador de pizzas em frente ao Bar das Quengas, na Lapa, na madrugada desta terça-feira, causou indignação a clientes de bares da região, que chegaram a testemunhar e gravar a cena. Nascido na Bahia e há 13 anos no Rio, Cleiton Gomes de Carvalho, 23, havia circulado na contramão em uma rua. Após a irregularidade, policiais lhe seguiram e o agrediram, levando-o à 5ª DP (Gomes Freire). Sem ter sido abordado anteriormente, o motoqueiro foi autuado e vai responder por resistência e desobediência no Juizado Especial Criminal (Jecrim). Dizendo ter se sentido a "pior pessoa do mundo" naquele momento, ele pretende ainda processar os PMs.

Abordagem policial a entregador de pizza na Lapa gerou revolta de quem testemunhou a cena%3B clientes dos bares tentaram impedir a detenção do motociclistaLeonardo Santos

"Eu entrei na contramão na Rua Silva Jardim, próximo à Praça Tiradentes. A rua estava deserta e era tarde. Como eu estava trabalhando e com pressa, fiz isso", relatou o motoqueiro. Cleiton contou ainda que chegou a ver uma viatura do 5º BPM (Praça da Harmonia) na praça e, ao passar por um sinal da Rua Gomes Freire, viu a mesma na via: "Eu vi pelo retrovisor, mas em momento algum eles me abordaram. E eu também não achei que fosse comigo".

Em seguida, ele foi até a Rua Washington Luiz, na Lapa, quando a viatura encostou na sua moto. Ele desceu do veículo, e, segundo relatos de Cleiton e testemunhas, os PMs logo lhe agrediram com um tapa em seu rosto. "Me senti a pior pessoa do mundo. Eles não me disseram por que eu estava sendo detido. Já saíram me agredindo. Além disso, depois que eu já estava no chão e algemado, eles ainda me puxaram pela roupa. Nada justifica isso", contou ele.


Apostila de treinamento da Polícia Militar, capítulo 27: Como pedir uma pizza na Lapa. 1) Atropele o entregador, de preferência com o risco de machucar civis na calçada. 2) Use o cumprimento padrão e aplique um tapa, assim que o entregador descer da moto e tirar o capacete. 3) Confira se o sabor pedido confere com a entrega, enquanto o entregador aguarda pacientemente no chão, com suas novas pulseiras. 4) Guarde a pizza na viatura. A Pizzaria Sabor Perfeito agradece o tratamento dado a seu entregador Clayton.

Posted by Leo Santos on Segunda, 20 de abril de 2015

"No momento que eu fui preso não falaram nada. E eu nao quis entrar na viatura porque eles não deram nenhuma explicação para aquilo. Quando cheguei na delegacia é que eles falaram que eu entrei na contramão na Praça Tiradentes", contou Cleiton, que afirma sofrer preconceito: "Já estou pensando em mudar de função, pois acham que motociclistas são bandidos. Chega a ser perigoso. Também penso em processar os PMs que fizeram isso. foi meu nome que ficou registrado na delegacia". 

O designer gráfico Leonardo Santos, de 35 anos, estava em frente ao local com a namorada e gravou parte da ação policial. "Revoltado" — como o próprio descreve —, ele conta que em momento algum os policiais ouviram os apelos das pessoas e que a abordagem foi "desproporcional. "Fiquei com medo de acontecer algo com o entregador depois daquilo. Assim que ele desceu da moto, os PMs lhe deram um tapa, o jogaram no chão em um tratamento absurdo. Não vimos ele ter feito absolutamente nada para aquela detenção e abordagem agressiva", opinou.

Leonardo conta que outras pessoas também filmaram a cena e uma mulher, que estava no Bar das Quengas, chegou a subir na viatura e gritar que eles não levariam o motociclista dali. 

Procurada, a PM ainda não se pronunciou sobre o caso. A Polícia Civil afirmou que o motociclista foi autuado por resistência e desobediência. O caso foi encaminhado para o Jecrim.

'Ação foi exorbitante', diz criminalista

Para o advogado criminalista e professor do IBMEC, Antonio Pedro Melchior, a ação dos PMs foi "exorbitante", cabendo ainda uma responsabilização dos militares nas esferas civil, penal e administrativa. 

"A polícia entendendo que aquilo (andar na contramão) foi uma fundada suspeita de crime, poderá abordá-lo, mas em momento algum de forma violenta", explicou o advogado. Segundo o criminalista, mesmo que a PM tivesse abordado o motociclista anteriormente, os policiais também não poderiam lhe agredir.

"Se eles disserem que era uma situação de fundada suspeita, a PM pode abordar o cidadão obrigando-o a parar. Caso ele estivesse em perseguição em decorrência de um flagrante e resistisse à prisão a lei permite que o Estado se utilize da medida necessária à detenção. Porém, isso não inclui puxar o motocilista, que já estava algemado, pela camisa, nem lhe dar um tapa", concluiu.

Segundo Antonio, houve exorbitância na ação policial. "Bater em pessoa algemada é rpesunção de abuso. um indício claro de abuso de autoridade e eventualmente outros crimes. Abusos de autoridade podem conduzir à responsabilização civil, penal e administrativa do agente", explicou. 

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