Mistério ronda fronha usada por Getúlio no dia da morte

Museu irá checar autencidade da relíquia. Leiloeiro quer vendê-la por pelo menos R$ 5 mil

Por O Dia

Rio - Uma fronha com manchas de sangue, usada pelo presidente Getúlio Vargas no dia de seu suicídio, em 24 de agosto de 1954, virou polêmica. O que pode ser uma relíquia histórica cobiçada por qualquer colecionador foi tirada na tarde de ontem da lista de bens que serão leiloados no 4º Leilão Comemorativo dos 100 Anos do Mercado de Artes Miguel Salles, em Petrópolis, por causa de dúvidas sobre sua autenticidade. Diante de questionamentos sobre a veracidade do pedaço de pano, o próprio Miguel Salles entregou a capa de travesseiro para análise de Magaly Cabral, presidente do Museu da República, que cuida do acervo de Vargas.A peça iria a leilão amanhã.

A fronha usada por Getúlio Vargas será submetida a análise criteriosa pelo Museu da República%2C que abriga todo o acervo referente ao presidenteBanco de imagens

“Vamos consultar nossos arquivos para saber se há alguma referência à fronha, falar com a família, apesar de ter passado muito tempo, e se preciso, fazer exame de DNA. Se a peça for autêntica, vamos ver os meios possíveis para adquiri-la”, adiantou Magaly. Miguel Salles garantiu que o objeto só irá a leilão depois que o Museu da República atestar sua autenticidade, o que poderá levar até duas semanas. “Temos uma tradição de um século em leilões. Em casos de peças históricas desse tipo, faço questão que sua autenticidade seja realmente comprovada”, ressaltou.

História impressa%3A primeira página do jornal O DIA com a notícia da morte de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954Divulgação

No texto em que apresenta a peça na página do leilão na Internet, com lance mínimo de R$ 5 mil, a socialite Mariza Martinelli, que mora há 29 anos em Nova Iorque (EUA) e tem apartamento no Leblon, na Zona Sul, garante que guarda a fronha - que tem as iniciais PsR (que seria alusiva à Presidência da República) - a sete chaves, desde 1972. Naquele ano, ela diz ter recebido a fronha das mãos do amigo e ex-deputado Edmundo Barreto Pinto, que foi frequentador assíduo do Palácio do Catete e tinha amizade estreita com o presidente.

“Barreto estava mal de saúde. Me chamou no jardim do Palacete dos Martinelli (em Botafogo) e me deu um pano branco, enrolado em folhas de árvore e me falou: 'estou lhe dando a fronha do presidente Getúlio Vargas, em seu momento mais Crucial. Meus amigos do Palácio do Catete me deram para guardar, pois era a única pessoa em quem confiavam. Sei que a guardará com o mesmo cuidado´”, detalhou Mariza.

Sobre a decisão de leiloar a fronha, Mariza justifica, alegando que resolveu atender à recomendação de Edmundo, que teria dito: “Pessoas que compram relíquias vão guardar com carinho, por saberem de seu valor inestimável. Principalmente esta, que faz parte do passado da História do Brasil”.

‘Saio da vida para entrar na história’

Getúlio Vargas se suicidou no seu quarto, no Palácio do Catete, que na época era sede do Governo Federal. O presidente sofria pressão da oposição, principalmente do jornalista Carlos Lacerda, que se aliou a políticos anti-getulistas para tentar tirá-lo do poder.

A pressão aumentou após o atentado que Lacerda sofreu em 5 de agosto de 1954. Um major da Aeronáutica, que cuidava da segurança de Lacerda, morreu assassinado. O jornalista acusou Vargas e membros do governo de tentar matá-lo. No dia do suicídio, Vargas fez uma carta testamento, que ficou famosa pela frase: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”

Segundo historiadores, Getúlio Vargas teria usado um travesseiro para tentar abafar o som do revólver Colt calibre 32, que usou para atirar em seu coração.

Colecionadores desembolsam fortunas por objetos de ídolos

Não é raro admiradores e fãs de pessoas importantes ou astros do cinema, esporte ou música, desembolsarem pequenas e grandes fortunas para adquirirem objetos que pertenceram a seus ídolos. Apesar de gastarem quantias consideráveis em dinheiro, os compradores, na maioria dos casos, prefere ficar no anonimato. É o caso, por exemplo, de um capacete de Ayrton Senna, arrematado por R$ 200 mil, em 2012.

O capacete comprado por um inglês, que pediu sigilo total, foi usado pelo piloto brasileiro em 1993 nas corridas do Brasil, Mônaco, Japão, Donington Park e Austrália, quando ele ganhou seu último grande prêmio. O acessório possui a assinatura de Senna, confirmando a autenticidade. No mesmo leilão, realizado na Inglaterra, um outro comprador levou o macacão de corrida do piloto pela quantidade de R$ 100 mil.

Capacete que pertenceu a Senna foi arrematado por R%24 200 milBanco de imagens

Um ano antes, um fã do cantor Elvis Presley gastou R$ 191 mil para comprar a Bíblia que o astro do rock lia diariamente. O item também possui anotações de Elvis, o que o valorizou ainda mais. Os leiloeiros esperavam R$ 81 mil com a venda do livro sagrado, um presente que o cantor ganhou no Natal de 1957 e manteve até a sua morte, em agosto de 1977.

Este ano, um comprador anônimo, fã dos Beatles, pagou o equivalente a R$ 68 mil por um par de óculos do cantor John Lennon. Pelo menos 290 pessoas deram lances pelo objeto.
Quanto a objetos históricos, por lei, museus têm prioridade para compras.

Colaboração de Athos Moura

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