Morre o jornalista Bartolomeu Brito, precursor da reportagem policial

Bartô, como era conhecido, escreveu em O DIA algumas das principais páginas de sua história

Por O Dia

Rio - O jornalismo brasileiro chora a perda de um dos seus maiores expoentes. Lenda das redações cariocas desde 1962 e um dos precursores da reportagem policial, Bartolomeu Brito de Souza, o Bartô, deu seu último suspiro na manhã desta terça-feira, na Casa de Saúde Santa Teresinha, em São João de Meriti, após longa batalha travada contra os males da saúde, acumulados ao longo de 73 anos de vida.

De acordo com amigos e familiares, o jornalista chegou a ser transferido para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) da unidade, onde já estava internado, após ter se sentido mal durante a madrugada, mas não resistiu. O afastamento das redações se deu em 2009, quando foi vítima de um Acidente Vascular Cerebral. Na época, batia ponto na redação do DIA, onde escreveu algumas das principais páginas da sua história.

Bartô%2C como era conhecido%2C não dispensava terno e gravataReprodução

Bartô tinha pouco mais de 1,5 metro e a voz mansa, mas eram os concorrentes que se sentiam intimidados com a presença dele nas coberturas policiais. Como trunfo, o jornalista se valia de duas armas infalíveis: o terno e gravata - do qual não abria mão, nem mesmo durante o verão - e de uma valiosa agenda, com fontes que sempre o levavam às manchetes dos jornais. Foi com a bravura que pontuou a sua carreira que cobriu, entre outros casos, o atentado à bombas, no Riocentro, em 1981, e seguiu à cola do mafioso italiano Tommaso Buscetta, membro da organização siciliana Cosa Nostra, que mantinha estreito relacionamento com o crime organizado brasileiro, que dava os seus primeiros passos na década de 1980.

Amigo há meio século, o repórter Luarlindo Ernesto se lembra com saudades do "E.T. de Varginha", como ainda se refere carinhosamente, por uma peculiaridade: em tempos de boemia e romantismo do jornalismo, Bartô pouco frequentava os bares, raramente bebia e não fumava. "Esse cara era de outro, mundo, pô!", destaca Luarlindo. "Ele se destacava em todos os aspectos. Profissionalmente, era irretocável. Já escrevia preciosamente, num tempo de repórteres 'botinudos'. Como pessoa, uma daquelas que o mundo não recebe todos os dias. Deixa uma lacuna nas redações e no mundo", conclui.

As histórias que ecoam nas redações, nesta manhã, são muitas. "Certa vez, a serviço do Jornal do Brasil, em tempos de Ditadura Militar, ele foi escalado para cobrir a condecoração de um general do Exército, fora do Rio de Janeiro. Chegou de helicóptero, pouco antes do militar, de terno e gravata. Bastou pisar no gramado para que a banda começasse a tocar e a cerimônia fosse iniciada. Nós, jornalistas, gargalhávamos do desconcerto dele", lembra Luarlindo, pouco antes de consolar a emoção de outro amigo de longa batalha, o assistente de redação Jorge Muller. "Não se fazem mais repórteres como ele", repetia.

O diretor de redação do DIA, Aziz Filho, também lamentou a morte do jornalista. "A tristeza que hoje toma conta dessa legião de amigos e admiradores dá uma dimensão do profissionalismo e da generosidade dessa grande figura. Bartô é do tipo que não veio ao mundo por acaso. Ele deixa muita história nas nossas vidas e por isso será sempre lembrado com enorme carinho."

Nos últimos tempos, combalido por uma paralisia parcial do corpo e dificuldades na fala — sequelas de um AVC — Bartô contou com amigos para dar prosseguimento ao tratamento médico. Mas foi na companhia de sua esposa, Josefa Félix de Souza, que teve o seu esteio. Com ela, teve uma filha que atualmente reside nos Estados Unidos. Além do DIA, Bartolomeu Brito também trabalhou nas redações do Jornal do Brasil, TV Manchete, TV Record e na Assessoria da Polícia Militar. Apesar de ter se afastado em 2009, ele já estava aposentado desde 1992, por tempo de contribuição.

O velório do jornalista será velorio amanhã às 11h no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, na Capela E.

‘Vivíamos tentando enganar a censura’, lembra o jornalista Luarlindo Ernesto, do DIA

Desde 1961 que nós nos esbarrávamos nas ruas. Sempre em locais de crimes. Ou tragédias. Na época, os jornais queriam os fatos dos locais, ao redor do morto.Ou dos mortos. E, sem esquecer jamais, o “boneco”, a foto da vítima. Ou das vítimas. Começamos aquela disputa saudável, sempre em conseguir detalhes que o outro não tinha. O dia a dia nos aproximou e nos levou a trabalhar juntos em várias ocasiões e em diversos jornais.

No DIA, trabalhamos na mesma equipe por duas vezes. No Jornal do Brasil, uma vez. No JB, encaramos a ditadura e a censura. Escrevemos matérias juntos, principalmente sobre a Camorra, a máfia italiana. Mas subíamos os morros, durante tiroteios, durante chacinas, durante deslizamentos com mortes. Encaramos muita desgraça, lado a lado.

Em determinada época, ele passou a trabalhar na Ascom da PM. E Bartô estava lá para ajudar. Não como os de hoje em dia, quando o assessor dificulta o trabalho dos jornalistas... Ele era assessor com três S... Respondia às perguntas e informava, de quebra. Sempre de paletó e gravata, ele mesmo dizia que, quando subia o morro, pensavam que ele era o “delegado de plantão”. E nós ríamos. Afinal, trabalhávamos com prazer e com dedicação.

Como era pouco chegado a farras e noitadas, ficavam para mim as noites insones, regadas aos chopes e conhaques da vida. No dia seguinte, ele inteirinho, de terno e gravata, e eu, amarrotado, com a gravata nas costas. Bons tempos,apenas nas velhas lembranças. Ruins para o país e para o seu sofrido povo, como na época, pelo menos até agora, a última com os milicos no poder. Vivíamos tentando enganar a censura, mandando “torpedos” nas matérias...

Confesso que, nesses quase 55 anos de profissão, já estou ficando triste, amargurado e de saco cheio de escrever sobre os amigos que estão morrendo na minha frente. Bartô, velho camarada, foi bom trabalhar com você. Até qualquer dia!


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