Mães relatam a dor de perder um filho para a violência policial do Rio

A insuportável dor que Mônica traz no peito é compartilhada por outras mães que também enterraram os filhos mortos por PMs, como aconteceu em março de 2005, quando 29 inocentes foram executados à queima-roupa na Baixada

Por O Dia

Rio - Um singelo pedido ecoa na cabeça da dona de casa Mônica Aparecida: “Mãe, faz um pão pra mim?”. Como um mantra da dor, as palavras se repetem na cabeça da mulher e a torturam. Há oito dias, seu filho, Cleiton Correa de Souza, de 18 anos e outros quatro amigos foram chacinados em Costa Barros por policiais militares do 41º BPM. Desde então, a voz de Cleiton reverbera pelas paredes da casa.

Desde o assassinato, a mulher perdeu o sono e a razão de viver. “Ouço o som da voz dele me chamando pela casa... mas não passam de vozes. Meu filho não vai voltar”, disse consternada. “A ficha começou a cair agora, mas a dor começou quando vi ele morto.”

Luciene Silva%2C mãe de Raphael. Mônica Aparecida%2C de Cleiton%2C e Luzia%2C mãe de Sandro%2C morto em 2005Bruno de Lima e Daniel Castelo Branco/ Ernesto Carriço/ Bruno de Lima

A insuportável dor que Mônica traz no peito é compartilhada por outras mães que também enterraram os filhos mortos por PMs, como aconteceu em março de 2005, quando 29 inocentes foram executados à queima-roupa na Baixada.

“Queria muito dar um abraço nessas mães de Costa Barros. Vejo outros jovens sangrando nas mãos de policiais e lembro como meu filho foi morto, há 10 anos. A dor e o sofrimento são iguais”, contou Luciene Silva, 50 anos, mãe de Rafael Silva, assassinado na Chacina da Baixada aos 17 anos Com o passar dos anos, o desespero de Luciene e outras mães que vivem em comunidades se repete.

“Meu filho foi criado no (Morro) Lagartixa e saiu de Caxias para comemorar com os amigos e terminou a vida de forma trágica”, disse Rosiléia Castro Rodrigues, mãe de Wesley, morto em Costa Barros. Foi pela televisão que Márcia Jacinto acompanhou o caso de Costa Barros e reviveu toda sua tragédia familiar. O filho dela, Hanry Silva Gomes de Siqueira, foi morto no Lins, em 21 de novembro de 2002. Desde então, Márcia participa de passeatas contra a violência.

“Os policiais não só acabam com a vida desses jovens, eles destroçam famílias inteiras. Acabou tudo. Ano Novo, Natal... não comemoro mais nada”, disse a mulher com a voz embargada.

Outra mãe de vítima da Chacina da Baixada, a doméstica Luzia Moura carrega no peito duas cicatrizes. A que ganhou após cirurgia para troca de válvula do coração e aquela que a faz mais sofrer, pelo filho Sandro, assassinado aos 16 anos. “Meu coração bateu forte e chorei ao ver pela TV as morte de Costa Barros”, contou Luzia.

“Sofri muito ao saber que um dos meninos mortos era Roberto. O meu filho era Paulo Roberto. Ele foi abordado num beco e sufocado até a morte. Ele já estava desmaiado, deu dois suspiros nos meus braços e morreu”, Fátima Menezes, 41, mãe do jovem, morto em Manguinhos em 2013.

ONG pede mudança na Polícia Militar

Fundador da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, se disse pessimista com atual estrutura da PM. “É provável que mães de civis inocentes e dos próprios policiais sigam chorarando nos próximos meses”, constatou.

Já o deputado estadual e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, Marcelo Freixo, lembrou que o problema cresce com os sucessivos arquivamentos de casos de autos de resistência. O defensor público Fabio Amado explicou que deve entrar na próxima semana com pedido de acordo indenizatório junto à Procuradoria-Geral do Estado.

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