Ruy Chaves: A culpa é... das Capitanias Hereditárias!

A política do ‘me garante que te garanto’ continua dominante

Por O Dia

Rio - Financeiramente quebrada à época do descobrimento, a coroa portuguesa transferiu a guarda de seus interesses no Brasil à iniciativa privada. Como um empreendimento imobiliário, o país foi dividido em lotes de terras, as Capitanias Hereditárias, entregues em caráter vitalício e hereditário ao domínio de nobres portugueses, os donatários, que deveriam colonizar suas capitanias, fundar vilas e doar terras a quem se dispusesse a cultivá-las, as sesmarias. Além de nomear funcionários, os donatários tinham direitos excepcionais como aplicar a Justiça, inclusive pena de morte, negociar escravos negros e escravizar os brasileiros originários, os índios, obrigando-os a trabalhar na lavoura e podendo enviá-los como escravos para Portugal, mas somente até 30 índios por ano!

Nos limites do Tratado de Tordesilhas e inspiradas nos feudos medievais, as capitanias perderam o privilégio da hereditariedade em 1759 e foram formalmente extintas um ano antes da Independência. As capitanias de Pernambuco e de São Vicente prosperaram, as outras fracassaram em seus objetivos, à exceção da guarda do território para a coroa. Assim, fomos vítimas de brutal processo de colonização apoiado em imensas propriedades rurais, na monocultura da cana e no trabalho escravo que perdurou, que vergonha, até 1888. Somente Zanzibar, Etiópia e Mauritânia aboliram a escravidão após o Brasil!

Em 2016 assombram-nos os terríveis fantasmas das capitanias hereditárias! A política do ‘me garante que te garanto’ continua dominante. Ministérios, secretarias de governo, sindicatos, fundações, empresas públicas, uns feudos, protegem interesses das novas coroas e de seus donatários. Em muitas regiões o coronelismo hereditário ainda impera, negros e índios escravizados substituídos por famílias sem água, sem trabalho, sem educação, sem esperança, mas com bolsa família como dádiva suprema. A cada eleição o Messias sorridente suja suas botas para salvar seu povo, abraça gente suada, come bucho de bode, toma cachaça, promete o céu, vida dura a de político, mas logo tudo passa, e ele volta ao seu feudo, protegido por cerca elétrica e fosso com jacarés, armado até os dentes pela trágica competência de advogados capazes de provar que todo torcedor do Vasco ama o Flamengo. Feliz Lava Jato para todos! Panta rei.

Ruy Chaves é diretor da Estácio e da Academia do Concurso

Últimas de Opinião

Ruy Chaves: A culpa é... das Capitanias Hereditárias! O Dia - Opinião

Ruy Chaves: A culpa é... das Capitanias Hereditárias!

A política do ‘me garante que te garanto’ continua dominante

Por O Dia

Rio - Financeiramente quebrada à época do descobrimento, a coroa portuguesa transferiu a guarda de seus interesses no Brasil à iniciativa privada. Como um empreendimento imobiliário, o país foi dividido em lotes de terras, as Capitanias Hereditárias, entregues em caráter vitalício e hereditário ao domínio de nobres portugueses, os donatários, que deveriam colonizar suas capitanias, fundar vilas e doar terras a quem se dispusesse a cultivá-las, as sesmarias. Além de nomear funcionários, os donatários tinham direitos excepcionais como aplicar a Justiça, inclusive pena de morte, negociar escravos negros e escravizar os brasileiros originários, os índios, obrigando-os a trabalhar na lavoura e podendo enviá-los como escravos para Portugal, mas somente até 30 índios por ano!

Nos limites do Tratado de Tordesilhas e inspiradas nos feudos medievais, as capitanias perderam o privilégio da hereditariedade em 1759 e foram formalmente extintas um ano antes da Independência. As capitanias de Pernambuco e de São Vicente prosperaram, as outras fracassaram em seus objetivos, à exceção da guarda do território para a coroa. Assim, fomos vítimas de brutal processo de colonização apoiado em imensas propriedades rurais, na monocultura da cana e no trabalho escravo que perdurou, que vergonha, até 1888. Somente Zanzibar, Etiópia e Mauritânia aboliram a escravidão após o Brasil!

Em 2016 assombram-nos os terríveis fantasmas das capitanias hereditárias! A política do ‘me garante que te garanto’ continua dominante. Ministérios, secretarias de governo, sindicatos, fundações, empresas públicas, uns feudos, protegem interesses das novas coroas e de seus donatários. Em muitas regiões o coronelismo hereditário ainda impera, negros e índios escravizados substituídos por famílias sem água, sem trabalho, sem educação, sem esperança, mas com bolsa família como dádiva suprema. A cada eleição o Messias sorridente suja suas botas para salvar seu povo, abraça gente suada, come bucho de bode, toma cachaça, promete o céu, vida dura a de político, mas logo tudo passa, e ele volta ao seu feudo, protegido por cerca elétrica e fosso com jacarés, armado até os dentes pela trágica competência de advogados capazes de provar que todo torcedor do Vasco ama o Flamengo. Feliz Lava Jato para todos! Panta rei.

Ruy Chaves é diretor da Estácio e da Academia do Concurso

Últimas de Opinião