Júlio Furtado: Conspiração magistericida

Segundo recentes estatísticas da Secretaria Estadual de Educação, cerca de dez mil professores se afastaram das salas de aula em 2015 em função de licenças médicas

Por O Dia

Rio - Segundo a Organização Internacional do Trabalho, os professores são a segunda categoria profissional que mais contrai doenças ocupacionais no mundo. São males adquiridos em função da natureza do trabalho. Só perdemos para os mineiros, que labutam a 300 metros de profundidade, respirando o pó preto do carvão.

Segundo recentes estatísticas da Secretaria Estadual de Educação, cerca de dez mil professores se afastaram das salas de aula em 2015 em função de licenças médicas. Desses, a maioria por problemas ósseos e fraturas e, em segundo lugar, por doenças psiquiátricas, com destaque para a depressão. 

Estudos realizados nas universidades da Flórida e do Arizona, nos EUA, chegaram à óbvia conclusão de que o processo depressivo dos professores afeta bastante a aprendizagem dos alunos, em especial dos que têm mais dificuldade em aprender.

Depoimentos de docentes licenciados por causas psiquiátricas apontam que a falta de pessoal de apoio e de infraestrutura em geral e o grande número de alunos em sala são os principais elementos causadores da sensação de fracasso no desempenho de suas funções que detonaram seus distúrbios.

A Secretaria Estadual de Educação oferece, desde 2011, equipe de saúde e bem-estar, formada por 30 profissionais, entre assistentes sociais e psicólogos para desenvolver projetos de bem-estar e qualidade de vida no trabalho em escolas e, com isso, cuidar dos 70 mil professores que compõem a rede. Cumpre ressaltar que essa realidade não é muito diferente nos demais estados brasileiros, o que me faz alimentar a fantasia de que estamos diante de um plano articulado para adoecer os professores.

As escolas realmente precisam de profissionais de saúde mental para ajudar os docentes a lidar com situações adversas e estressantes, mas apenas prevenir as consequências sem resolver as causas assemelha-se a enxugar gelo. A estrutura de grande parte das escolas continua precária, a falta de profissionais de apoio continua bastante comum, e as turmas lotadas continuam a ser a regra.

Essa realidade, somada à ausência de uma formação continuada que verdadeiramente instrumentalize os professores a realizar a gestão da sala de aula, corroboram para a crença numa ‘conspiração magistericida’.

Júlio Furtado é professor e escritor

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