Roberto Muylaert: Repassem incansavelmente

Não é preciso ler o tal manifesto para entender que alguns senadores e respectivos asseclas estão tentando ‘melar’ o processo da Lava Jato, o que seria um enorme retrocesso nas punições que estão sendo aplicadas

Por O Dia

Rio - Vêm circulando na internet nos últimos dias insistentes mensagens com fortes apelos e um título original: “Repassem incansavelmente”. Em seguida, são relacionados os nomes de senadores e respectivos partidos que pedem a abertura de processo disciplinar contra Sergio Moro.

O e-mail acrescenta que “o STF está proibindo o juiz Moro de analisar os processos de diversos suspeitos da Lavajato e já vai fatiar o processo. O Dias Toffoli (ex-advogado do PT) é quem irá direcionar os processos.” “Infelizmente, estamos sendo mais uma vez enganados, surrupiados, roubados, e esta Nação Brasileira, de um povo pacato, vai aceitar mais essa enganação?”

Em geral, esse tipo de conclamação carece de objetividade e de um bom português, e esta não é uma exceção. No caso presente, a ideia apresentada é enviar o texto para o maior número de pessoas e “mostrar que o povo brasileiro está do lado do juiz Sérgio Moro e não vai aceitar e presenciar mais esta pizza e ficar calado”.

Salta à vista desde logo a consideração de que o brasileiro “é um povo pacato e não vai mais aceitar essa enganação”. A conclusão da frase não combina com a premissa, onde um povo pacato, em geral, não reage.

De fato, nunca fomos tão pacatos como no confisco de Collor, que limpou as contas correntes e as cadernetas de poupança de cada um de nós. Naquela época, Fidel Castro fez um programa ‘Roda Vida’, na TV Cultura, e ficou impressionado com o confisco das poupanças, dizendo que “isso não havia sido feito nem na Revolução Cubana”.

Não é preciso ler o tal manifesto para entender que alguns senadores e respectivos asseclas estão tentando ‘melar’ o processo da Lava Jato, o que seria um enorme retrocesso nas punições que estão sendo aplicadas contra a desonestidade e as artimanhas políticas, com apoio geral.

De fato, está na hora de fechar questão contra esse movimento no Senado, com ecos no Supremo Tribunal Federal, onde alguns pedidos de vista dão a impressão de apenas postergar as decisões, ao aguardar um providencial decurso de prazo. É revoltante, em especial quando constatamos que o próprio presidente do Senado já tem 12 inquéritos contra si, e continua lá, inexpugnável. 

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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