Ricardo Cravo Albin: Dinheiro brotou da água

Nem em conto de fada, nós, a plebe rude vilipendiada pelos assaltantes dos bens de todos, poderíamos sonhar em dinheiro brotando do mar

Por O Dia

Rio - Em épocas de crise como esta, o dinheiro evola-se, escasseia-se, oculta-se em escaninhos invisíveis. Visíveis, é claro, apenas aos olhos sagazes e matreiros dos que nos meteram em tenebrosas transações. Escafede-se o dinheiro (nos dias de hoje) às nossas barbas, aqui mesmo, na dilapidação vergonhosa do Rio. A ruína foi de tal ordem que acompanhou olimpicamente o desastre financeiro de que todo o país foi, e está sendo, vítima. Eu nunca vivenciei, Deus meu, tamanha distorção da ética pública, tamanha desfaçatez no uso dos dinheiros oficiais, tamanha crise de sem-vergonhice.

O Brasil ficou refém de roubalheira em cadeia, e nunca se viu estado de perplexidade popular como o que se desnuda desde o começo do Petrolão, cujas origens hórridas foram fartamente anunciadas desde o Mensalão.

Aliás, o superlativo em “ão” é fruto do sentimento furioso e envergonhado das vítimas, todos os que pagamos as contas.

Mas, caluda! Parem as máquinas! Movimentem-se as esperanças! Nem em conto de fada, nós, a plebe rude vilipendiada pelos assaltantes dos bens de todos, poderíamos sonhar em dinheiro brotando do mar, emergindo aos borbotões das águas escuras e poluídas da Baía de Guanabara. Qual golfadas de súbitas mas silenciosas ondas, pescadores das imediações da Urca começaram a esfregar os olhos ao verem papeizinhos que vislumbravam à sua frente, iguais às notas de 100 ou 50 reais. Mal acreditaram ao recolher os primeiros papéis. Eram, sim, cédulas de verdade.

Aos gritos, berravam pálidos para colegas que lhes eram vizinhos: “Dindim, dinheiro vivo, dinheiro saído das profundezas. Deus é grande, Deus é grande”. De imediato, os pescadores, em frêmitos de êxtase, mergulharam nas águas. E retiraram dos fundos do lodo pacotes de notas, logo convertidas em pacotes de milagre, de bênçãos, de salvação. Afoitos já profetizavam que a próxima esperança seria chover dinheiro do céu, tal como na canção célebre ‘Pennies From Heaven’ (Moedas Caídas do Céu).

Portanto, envolto em magia e quase assombração pré-natalina, carimbou-se um dos relatos mais originais da cidade de São Sebastião. Muito, muitíssimo mais espantoso, que o das latas de maconha que mimosearam os felizes rapazes de Ipanema anos atrás. Uma paráfrase de conto de fada, um sopro de esperança para o sonho. Que maravilhou este triste final de ano. E acendeu a fé em milagres.

*Ricardo Cravo Albin é presidente do Inst. Cultural Cravo Albin 

Últimas de Opinião