Roberto Muylaert: Justiça sem venda nos olhos

O significado daquele tapa-olhos é tão somente o de mostrar que a Justiça deve ser feita de acordo com as leis, independentemente de quem esteja sendo julgado, ou quais as consequências de uma decisão

Por O Dia

Rio - O ‘Estado de S. Paulo’, contrariando sua tradição de editoriais de bom-senso, ficou do lado errado ao apoiar a decisão do Supremo Tribunal de segurar Renan Calheiros na Presidência do Senado, apesar dos seus 12 inquéritos.

E a presidente Cármen Lúcia capitulou, apesar da confiança que os brasileiros colocavam nela por sua conduta irrepreensível até então: votou contra Marco Aurélio de Mello, ministro que havia sentenciado a imediata saída de Renan. Não cabe julgar se Mello estava correto ao decidir sobre assunto tão delicado de forma monocrática.

Não deve ter havido na história da República uma ocasião em que o Supremo tenha decidido por “ação entre amigos”, com a presidente do Supremo votando a favor do que seria “o melhor para o Brasil”. Ou seja, a Justiça, que sempre teve a venda nos olhos, como mostra a escultura de Alfredo Ceschiatti defronte ao prédio do STF, agora tirou a venda, sem cerimônia.

O significado daquele tapa-olhos é tão somente o de mostrar que a Justiça deve ser feita de acordo com as leis, independentemente de quem esteja sendo julgado, ou quais as consequências de uma decisão.

Entre muitos outros, um telefonema de Aécio Neves para Cármen Lúcia recomendou que, ao julgar, lembrasse de que a saída de Renan iria interromper o andamento da PEC do Teto de Gastos, de que o governo Temer necessita para se manter no poder, assunto ora resolvido. E mais uma porção de gente deu palpite na decisão do STF.

“Trata-se de um inédito arranhão na imagem de uma instituição até há pouco reverenciada nas ruas como uma trincheira anticorrupção no Brasil”, segundo ‘Veja’. Esta revista deu o recado, onde o ‘Estadão’ deu para trás, apoiando até mesmo aquilo que é considerado “uma jabuticaba política”, o fato de manter Renan no cargo, mas retirá-lo da linha de sucessão presidencial.

Enquanto isso, a delação premiada contra políticos acusados de diversos crimes começou com a extensa lista de corruptos revelada por Claudio Mello Filho, da Odebrecht, em tamanha extensão, que deixou o país atônito. E como todos os acusados têm foro privilegiado caberá ao Supremo julgá-los.

Será que dá para confiar no Supremo? Ou a conveniência de preservar tantos políticos importantes vai fazer a Justiça ficar sem a venda nos olhos outra vez?

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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