‘Sou um descascador de abacaxis', diz Wagner Victer

No novo cargo, secretário estadual de educação pretende levar a profissionalização técnica como opção aos alunos do Ensino Médio e diz ter avançado na negociação com grevistas

Por O Dia

Rio - O novo secretário estadual de Educação do Rio, Wagner Victer, se define como um ‘descascador de abacaxis’. A alcunha será testada neste momento em que assume a pasta, com 5% das escolas ocupadas e greve que completa três meses dia 2. Engenheiro, Victer já foi secretário de Energia do Rio, presidente da Cedae e da Faetec. No novo cargo, pretende levar a profissionalização técnica como opção aos alunos do Ensino Médio e diz ter avançado na negociação com grevistas.

O DIA: Na sua primeira entrevista ao vivo o senhor conjugou o verbo ouvir errado. Disse “eu ouvo”. Ao que atribui o erro?

WAGNER VICTER: Eu sempre falo muito rápido, mas me corrigi. Não sou perfeito e não tem como esperar de mim a perfeição. Para corrigir erros aí estão os professores. E estava escutando mal mesmo, no carro em movimento. Realizaram a ligação de telefone restrito e normalmente é minha mãe que faz isso. Pior seria se respondesse: “Fala mamãe”, já imaginou?

Secretário estadual de educação pretende levar a profissionalização técnica como opção aos alunos do Ensino Médio João Laet / Agência O Dia

O senhor conseguiu algum avanço na negociação com grevistas?

Até o dia 7 vou sancionar a lei da eleição democrática para as escolas. O Sepe também me levou outro pleito, que é o da descentralização da perícia médica. Sentei com o secretário de Saúde e vamos fazer um termo de cooperação centralizando esses exames por regionais. A modificação da matriz curricular também será atendida, com mais aulas de filosofia e sociologia. O Saerj também vai ocorrer duas vezes ao ano, com maior participação dos professores nas questões.

Qual o impacto dessa modificação curricular para a secretaria?

O impacto será a possibilidade de pagamentos adicionais a professores ou a contratação temporária de professores. Talvez concursos.

Como serão as eleições nas escolas para a direção?

As eleições serão progressivas pois são 1.270 escolas. Isso também vai ocorrer na Faetec. Os diretores irão fazer um curso de formação antes de assumir. O que o aluno espera é que a pessoa seja eleita democraticamente e que saiba prestar contas dos recursos de forma transparente. O curso de formação será basicamente de gestão e transparência nos recursos. Agora, terá que ter muita responsabilidade nessa eleição. Não pode eleger só porque é o mais queridinho ou o mais popular.

E como fica a situação dos grevistas que estão em estágio probatório?

Não vou fazer coação. Vamos usar os princípios negociais e o que estabelece a lei. A greve é um direito constitucional. Não vou demitir ninguém até porque a lei garante a greve. Mas pretendo evoluir na negociação e atingir o equilíbrio em breve.

O senhor tem uma expectativa de data para o retorno total das aulas?

Seria de uma prepotência muito grande colocar uma data de finalização para as desocupações e para o fim da greve, isso seria um erro negocial. Tenho que reduzir a crise herdada. Estava falando agora do ministro da Educação e combinamos cooperação. Disse: “Tudo o que ajudar aqui, vai multiplicar por dez a visibilidade, pois o Rio tem esse poder de ressonância. Então, algo bom no Rio, reverbera no país.”

Como seria a cooperação com o governo federal?

Parcerias, diálogos. Por enquanto, estou me cercando de pessoas que possam me ajudar. O ministro vai querer apoiar a educação no Rio. Convivi com ele quando era secretário de Energia e ele era vice-governador. Na época, eu já tinha o apelido de “descascador de abacaxis”. Agora, tem um abacaxi e me colocaram para descascar.

Quais serão as suas primeiras medidas práticas na educação?

No próximo mês, vamos inaugurar um curso profissionalizante em escola em Barra Mansa, em parceria com a Peugeot Citroën e Senai. Vamos construir parcerias com a Faetec. Muitas vezes, as vagas da Faetec não vão a sorteio e alunos não conseguem se inscrever. Vou mudar isso. No Ensino Médio, o aluno poderá optar por ter vagas em cursos profissionalizantes.

Como o senhor avalia o movimento de ocupação das escolas?

Tenho visitado muitas escolas ocupadas. Para cada escola desocupada já providenciei R$ 15 mil para reparos estruturais, apesar da crise. Procuro o diálogo. Nós temos um fórum permanente onde escutamos os alunos, com apoio do Ministério Público e da Defensoria Pública mediando. Por exemplo, o RioCard, os alunos querem mudanças na periodicidade da recarga. Estamos procurando como fazer isso. Acho legítimo escutar os alunos.

Como avalia a ação da PM na retirada de alunos da sede da secretaria?

Não cabe a mim fazer avaliação da ação da polícia. O que posso avaliar é que a decisão é de colegiado de governo, que passa pela Procuradoria-Geral do Estado. Então tem toda uma legalidade dizendo que retomada poderia ser feita. Mas esse princípio não foi aplicado a uma escola.

A retirada à força poderia ser usada em uma escola?

Não há a intenção de aplicar a força em escolas onde estamos negociando. Na escola vamos ao diálogo através do fórum estabelecido pela Defensoria e Ministério Público. Tem prazo estabelecido em uma ação civil pública. Claro, há outro seguimento importante que é daqueles que querem ter aula e paz. Mas nenhuma decisão será tomada sem diálogo e vamos chegar a um equilíbrio.

A sede da secretaria foi pichada. Já conseguiram identificar os autores?

Fizemos o registro de ocorrência e é lamentável dilapidar patrimônio. Quem vai pagar o conserto é a sociedade. Por mais que os clamores sejam justos, não dá direito de dilapidar patrimônio.

Alunos que ocuparam as escolas mostraram livros e uniformes novos, sem uso. O senhor pretende realizar uma maior fiscalização desse material?

Isso me chocou muito. É certo que a escola tem que ter uma sobra de livros para fins logísticos. Mas tem que ter um mecanismo que faça o livro ter uma destinação. Isso é algo que não gostei e acho que será uma grande oportunidade de melhoraria essas outras saídas.

Qual o recado que o senhor tem a dar aos alunos e grevistas?

Temos que procurar convergência. O cliente maior são os alunos, nós somos os meios. Nós nunca podemos perder o foco que é ter aula de qualidade. Óbvio que é preciso ter o meio, então, nos temos que convergir. Temos o governador licenciado mais pidão do país, que é o Pezão. Já o Dornelles, do ponto de vista político, é o mestre Yoda dos Jedi. Já trabalhei com o ministro da Educação e essa junção é muito boa. Quero integração com a prefeitura. Com todos convergindo, chegaremos ao melhor equilíbrio.

Últimas de Rio De Janeiro