Polícia investiga pelo menos quatro suspeitos de matar aluno da UFRJ

Delegacia de Homicídios deve conseguir imagens de câmeras de segurança da universidade nesta terça-feira

Por O Dia

Estudante de Letras morto na UFRJ%2C no FundãoReprodução Facebook

Rio - Pelo menos quatro estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) são suspeitos de participar de crime contra o universitário Diego Vieira Machado, de 30 anos. A informação foi confirmada pelo delegado titular da Delegacia de Homicídios da Capital (DH), Fábio Cardoso, que ouviu seis testemunhas, nesta segunda-feira. Diego foi assassinado no último sábado dentro do campus da faculdade, no Fundão, e a principal linha de investigação da polícia é crime de homofobia.

De acordo com o delegado, a polícia deve conseguir as imagens das câmeras de segurança da UFRJ nesta terça-feira, além de ouvir o depoimento de outras testemunhas. Cardoso contou ainda que o resultado da necropsia do Instituto Médico Legal (IML) deve ficar pronto até o fim desta semana. 

"O relato das testemunhas confirmou o que a DH já tinha, de que ele era uma pessoa homossexual, que estudava no campus, se relacionava bem com as pessoas, mas que sofria algum tipo de preconceitos, de ameaças homofóbicas e racistas. Algumas dessas pessoas já foram elencadas", contou ainda o delegado titular, que não descarta a possibilidade de crime sexual. "Essa é uma outra linha que nós estamos trabalhando. O laudo de necropsia será importante para apontar se houve tentativa de estupro", afirmou.

As câmeras de segurança serão importantes, segundo Cardoso, para investigar a denúncia de que um homem com manchas de sangue nas roupas teria tomado um ônibus em um ponto próximo ao alojamento. "Nós recebemos essa informação e estamos investigando. A gente aguarda a liberação das imagens. Nós estamos ouvindo testemunhas para saber se isso aconteceu e chegar a essa pessoa", disse o delegado.

Reitor da UFRJ quer Polícia Federal apurando ameaças

O departamento de informática da UFRJ detectou que e-mails com ameaças a alunos partiram de uma base no Canadá. O reitor Roberto Leher desconfia que houve mascaramento para ocultar o IP (endereço) da máquina responsável pelo envio da mensagem. Por isso, pedirá à Polícia Federal que investigue o caso.

"Parece que utilizaram o Siga (Sistema de Gerenciamento Acadêmico, utilizado por professores, alunos e funcionários) para enviar as mensagens de intolerância. O setor de combate a crimes cibernéticos da PF nos ajudará”, disse o reitor. 

Aluno do curso de Comunicação e diretor do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Pedro Paiva disse que grupos fascistas e conservadores atuam há algum tempo na universidade e fazem ameaças aos gays. “Eles fazem comentários homofóbicos e os banheiros são pichados com frases como ‘morte aos gays da UFRJ’”, contou.

De acordo com Paiva, algumas páginas de grupos fascistas na internet foram identificadas, como ‘UFRJ da Opressão’, ‘UFRJ Livre’ e ‘Liberta UFRJ’. Ele reclamou da falta de segurança no Fundão: “São ameaças antigas. A gente já tinha ideia do que poderia acontecer. A morte do Diego é o resultado disso.”

No dia 7 de abril, em seu perfil no Facebook, Diego havia denunciado o caso de um rapaz que teria sido violentado por seguranças que trabalhavam nas obras de construção de um campo de rúgbi, dentro do campus, que servirá para treinamento de atletas para a Olimpíada. A vítima era gay e foi violentada com um cabo de vassoura.

Universitário temia pela vida, diz irmão

Segundo o irmão do universitário, Maycon Machado, ele temia ser morto e planejava se mudar do alojamento por ter recebido ameaças por ser gay. "Ele não tinha medo de dar as suas opiniões. Batia de frente, argumentava. Sofria bullying desde a infância por ser gay, por ter cabelo grande, por ter um estilo diferente", contou. "Mas agora a violência parecia real e ele ligou para minha tia para pedir dinheiro e poder sair do alojamento." A ligação foi feita há 10 dias, mas a família retornou dias depois e não conseguiu mais falar com Diego. 

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A família é de Belém, no Pará, e não via o rapaz desde 2013, pois ele não tinha dinheiro para voltar e fazer uma visita. Ele deixou a cidade em que morava já sendo vítima de homofobia: foi agredido e teve o cabelo cortado por dois homens. Além de Maycon, Diego tinha mais uma irmã de 23 anos e um irmão de 18 anos. A vinda para o Rio era também uma fuga do preconceito da cidade onde morava. "Ele veio para o Rio porque onde morava que era uma cidade muito atrasada, achou que no Rio, por ser mais evoluída, em tese menos preconceituosa, não sofreria." 

Diego morava no Rio desde 2011 e começou o curso de Letras na UFRJ em 2012. Entrou pelo sistema de cotas. "Ele tinha o sonho de morar no Rio de Janeiro. Sempre foi estudioso e a nota no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) seria suficiente para entrar em faculdades de outros Estados, mas queria o Rio", comentou o irmão. Praticante de artes marciais, ele praticava as lutas para se defender das agressões. "Foi mais de uma pessoa que fez isso, porque um sozinho não conseguiria. Ele era alto e forte", contou o irmão.

Reportagem do estagiário Caio Sartori


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