Morte de agente da Força Nacional expõe fracasso do projeto de segurança na Maré

Em dois anos, ocupação teve 27 militares feridos e um morto. Placa móvel foi instalada para indicar a Linha Vermelha

Por O Dia

Rio - Depois da morte do soldado da Força Nacional Hélio Vieira de Andrade baleado ao entrar quarta-feira por engano na Vila do João, na Maré, a prefeitura tomou uma providência para evitar novas vítimas. Instalou ontem no acesso à Linha Vermelha, na altura da comunidade, uma estrutura móvel de sinalização indicando o caminho para a via expressa, ao lado de uma fixa apontando a entrada da favela.

Entrada da comunidade Vila do João recebe placa indicando direção para a Linha VermelhaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Bandidos já fizeram várias vítimas que, tentando chegar à Linha Vermelha, entraram na comunidade. Com a morte no período olímpico, os holofotes se voltaram para o problema. A pacificação do Complexo da Maré, formado pela Vila do João e outras 16 favelas, foi um dos maiores fracassos do estado.

Essa era uma das promessas de campanha em 2014 de Luiz Fernando Pezão, que chegou a pedir apoio do Exército para a ação. A ocupação, que durou dois anos, ao custo de R$ 600 milhões ao cofres da União, terminou com 27 militares feridos e um morto: o soldado Michel Augusto Mikami, 21, atingido por um tiro na cabeça em novembro de 2014. O caso, porém, não entrou nas estatísticas do Exército como “morte em guerra”. Desde 1972, quando ocorreu a guerrilha do Araguaia, o Exército não perdia um combatente em confronto. Com a triste experiência, o Ministério da Defesa se recusou a ocupar novamente a Maré durante a Rio 2016.

“São traficantes sanguinários, que gostam de torturar. Há relatos de surras em moradores que dificultam as denúncias”, afirmou o delegado da 21ª DP (Bonsucesso), Wellington Vieira. Em áudio, um policial descreve a outro como deve se portar ao trabalhar no local.

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Morte de soldado da Força Nacional expôs fracasso do projeto de segurança do Complexo da MaréArte O Dia

“Você tem que pedir permissão a um mototaxista. Ele vai lá dentro dizer que você vai entrar. Em um beco, o traficante vai te ‘palmear’ e permitir sua entrada”, diz a gravação.

Segundo um oficial da PM, moradores são revistados. “Carros têm que piscar e os porta-malas são abertos. Se o Exército não resolveu, os poucos policiais lá não têm condição nenhuma de agir.”

Três traficantes são apontados como os chefes do Complexo da Maré

Com 132 mil habitantes divididos em 17 comunidades, a Maré ocupa posição estratégica no mapa do Rio: fica entre as principais vias de acesso da cidade e próxima do Aeroporto Internacional Tom Jobim. As favelas são divididas entre o domínio do tráfico de duas facções e de milicianos. Segundo a polícia, três traficantes comandam: Rodrigo da Silva Caetano, o Motoboy, e Jorge Luiz Moura Barbosa, o Alvarenga, do Comando Vermelho, e Thiago da Silva Folly, o TH, do Terceiro Comando Puro. Na Nova Holanda e no Parque União, o tráfico é do CV.

Na Nova Holanda, chefiada por Motoboy, um baile funk arrasta diferentes públicos nos finais de semana. Policiais não impedem que traficantes fechem a rua com dois ônibus para a venda de drogas. Fotos são proibidas. No Parque União o tráfico é chefiado por Alvarenga. Em 2012, ele torturou até a morte o DJ Raphael Paixão, o Chorão por tocar músicas durante bailes na Maré do TCP. Desde a prisão de Marcelo das Dores, o Menor P, e seu irmão Fabiano Santos de Jesus, o Zangado, em 2014, os pontos de drogas foram redistribuídos entre os traficantes do TCP, subordinados a TH. Na Vila do João quem gerencia o tráfico é Alexandre Ramos Nascimento, o Pescador. “Impõem medo aos moradores”, diz o delegado Wellington Vieira.

?Colaborou Leandro Eiró

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