Canal no WhatsApp ajuda a combater violência policial

Há quatro meses no ar, Defezap já recebeu mais de 500 denúncias e tem 47 casos registrados no Ministério Público

Por O Dia

Rio - Se você nunca presenciou, certamente já viu um vídeo na internet ou conhece alguém que já passou por constrangimentos causados por abuso de poder por parte da polícia. O medo de se identificar leva a vítima ou a própria testemunha a não registrar os casos. A ONG ‘Meu Rio’ criou o Defezap, um canal de autodefesa do cidadão no Whatsapp, para onde são enviados vídeos-denúncias que mostram violência ilegal cometida por agentes do estado, como policiais militares, guardas municipais, policiais civis e agentes das Forças Armadas. Tudo isso sem ser identificado, graças ao recurso da criptografia, usada pelo aplicativo, que restringe o conteúdo da mensagem somente aos interlocutores.

Coordenador do Defezap, Guilherme Braga explica que os vídeos recebidos são analisados por uma equipe técnica especializada e é preciso conter elementos mínimos para que possam cobrar uma resposta das autoridades, como data e hora dos registros.

O Defezap recebeu%2C no 1º mês%2C oito trotes. Já nos meses seguintes%2C o número caiu para um trote por mêsArte O Dia

A partir daí são elaborados dossiês individuais que são encaminhados para a Polícia Civil, Ministério Público e corregedorias.

“Esse procedimento, por exemplo, dá conta de 90% dos casos”, avalia. E o trabalho não para por aí. A equipe entrega os dossiês e acompanha caso a caso até o seu desfecho. Atualmente, com quatro meses no ar, o Defezap já recebeu mais de 500 vídeos e tem 47 casos no MP em estágios de andamento diferentes. “O que percebemos é que a população tem uma carência grande de informação sobre a ‘coisa pública’. E que o poder público não está acostumado a responder pelos seus próprios erros. É aí que entramos, com a cobrança por resultados”, revela Guilherme Braga.

O serviço, que também funciona através de um site, trabalha com casos ocorridos somente nos 21 municípios da Região Metropolitana do Rio. Como Duque de Caxias, onde aconteceu a morte de um menor durante incursão da PM na Favela do Lixão. O vídeo foi enviado por uma estudante de História de 25 anos, que preferiu não se identificar.

“Já que o estado não faz o seu papel cobrando das autoridades que corrijam essas covardias, o Defezap vem para dar um pouco de esperança pra gente”, diz a jovem, que já presenciou desde tapas no rosto até a morte de amigos.

A Polícia Militar informou que a Corregedoria Interna da Corporação apura desvios de conduta dos policiais que, quando comprovados, são encaminhados à Promotoria de Justiça Militar. E pede que denúncias de ilegalidades cometidas por PMs sejam encaminhadas para o (21) 2332-2341. No Defezap, o canal para envio das imagens é o (21) 99670-1400 ou pelo site saibamais.defezap.org.br.

‘Cuidado ao analisar imagens’, diz comandante

O coronel Fernando Salema, comandante do 12º BPM (Niterói), ressalta que o PM, muitas vezes, está sobrecarregado e é provocado pela população, o que, diz ele, alimenta reações ilegais. “Tenho policial trabalhando em dia de folga. Isso estressa, mas os PMs são treinados para não cometerem abusos. É importante também ter cuidado ao analisar imagens. Essa semana, um policial teve que se desarmar para conter um sujeito agressivo em um hospital. Foi tudo filmado mas ainda é capaz desse policial ser acusado de violência”, desabafou. Coronel PM da reserva, Paulo César Lopes defende a iniciativa: “É legítimo esse controle exercido pela população. O delegado Vinícius George diz que a PM é alvo mais frequente de reclamações porque é a força que está mais exposta no dia a dia.

Sargento suspeito de matar jovem na Pavuna ainda não foi julgado

O aposentado Gilberto Lacerda Dingo vai completar um ano aguardando o julgamento do caso que levou à morte o seu filho, Thiago Dingo, 24 anos, e seu amigo, Jorge Paes, 17, baleados com um tiro de fuzil disparado por um sargento do 41º BPM (Irajá) ao confundir o macaco hidráulico que os meninos carregavam com uma arma de fogo.

Na época, o Defezap ainda não existia. Ele acredita que se a ferramenta já estivesse disponível o caso poderia ter tido mais atenção e a investigação ter sido mais ágil.

“Se eu roubar um quilo de feijão, vou preso na hora e ele (PM) ainda está solto. Preciso resolver isso para ter um pouco de paz. O caso foi encerrado na DH e está na Justiça, mas não me deram data da audiência. É um descaso. Temos de cobrar mais desses órgãos”, desabafa. Mesmo sendo réu confesso, o policial não ficou preso. À época, foi afastado e recebeu acompanhamento psicológico.

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