Feijão está cada vez mais fora da mesa do carioca por supostas 'lendas antigas'

Segundo o chef Thiago Castro, muitas pessoas acreditam que o alimento é de difícil preparo e 'coisa de pobre'

Por O Dia

Rio - As Frenéticas já cantavam na década de 1970 que dez entre dez brasileiros preferem feijão. Preferiam. O tempo passou e o produto mais popular ao lado do arroz na mesa do brasileiro, especialmente do carioca, com a tradicional feijoada às sextas-feiras, já não é mais tão querido assim. Pesquisas indicam que a agitação da vida moderna, o aumento do consumo de soja e o preço salgado do item mais típico da mesa nacional é, agora, preferência de sete entre 10 brasileiros.

O chef Thiago Castro quer acabar com supostas 'lendas antigas'Alexandre Brum / Agência O Dia

Estudos anuais encomendados desde 2006 pelo Ministério da Agricultura e o Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe) ao Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) constataram que o consumo diminuiu entre a população em nove anos, principalmente entre os mais jovens.

Dos cerca de 50 mil brasileiros com 18 anos ou mais ouvidos anualmente pelo Vigitel, o percentual de adultos em 27 cidades do país que têm consumo regular de feijão, em cinco dias ou mais na semana, foi de 66,1% ano passado, sendo maior entre homens (72,7%) do que entre mulheres (60,5%). O índice era de 68% em 2010.

A equipe do chef Thiago Castro%2C formada por Claudio Ferreira%2C Sheila Gomes e Antonio MoraisAlexandre Brum / Agência O Dia

Para voltar aos velhos tempos de pleno sucesso, o Ibrafe e outros órgãos ligados ao Ministério da Agricultura, como a Câmara Setorial do Feijão, têm feito campanhas constantes para reaquecer a fama de bom moço do feijão. Apesar de ainda estar cozinhando em fogo brando, o esforço tem dado certo. Pelo menos é o que garante o presidente do Ibrafe, Marcelo Lüders.

“Há uma volta natural às mesas. A qualidade melhorou, as referências positivas na internet mostram que o feijão continua sendo excelente para a saúde e com pouca caloria, apenas 5% do total diário por porção. O feijão ainda é e sempre foi uma paixão nacional”, propagandeia Marcelo, destacando pontos de campanhas que enaltecem o produto, como o de ser bom para a memória e até afrodisíaco. Segundo ele, o consumo per capita nos últimos 12 meses já subiu e estaria em 18 quilos por habitante por ano, perto de atingir 70% dos adultos com frequência de cinco dias ou mais por semana, embora ainda não tenha pesquisa oficial.

O feijão também veio perdendo espaço ao longo do tempo para os lanches, que passaram a substituir o jantar, e o hábito de se comer frutas e hortaliças. Os lanches, que eram hábito de 29,9% dos entrevistados em 2010, passou a ser preferência de 37,6% em 2015.

‘É preciso desmistificar as lendas’

Conhecido como o Rei da Feijoada, o premiado chef carioca Thiago Castro, de 33 anos, está acostumado a atender até 4 mil pessoas por fim de semana, entre artistas, jogadores de futebol e sambistas. Ele quer entrar para o Guinness Book, o livro dos recordes e diz que é preciso ‘desmistificar lendas’ em torno do feijão.

“Primeiro, que é de difícil preparo. Mentira. Hoje em dia, há muitas maneiras de cozinhá-lo e armazená-lo. A outra é de que é coisa de pobre. A primeira coisa que abastados turistas estrangeiros querem é experimentar feijoada quando chegam ao Brasil”, diz.

Ele iniciou o movimento conclamando todos os chefs de restaurantes do Rio a servirem regularmente pratos à base de feijão.

Brasil é líder na produção

Tradicional feijão já não é mais tão querido pelos cariocasAlexandre Brum / Agência O Dia

De acordo com a Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), o Brasil é o maior produtor — com 3,7 milhões de toneladas anuais — e consumidor mundial de feijão. Da variedade carioca, também chamado de carioquinha, curiosamente de origem paulista, é o mais consumido no Brasil (85% do mercado), ao feijão-azuki, pouco cultivado no país, o feijão é um dos alimentos básicos mais completos e acessíveis do brasileiro.

O produto é cultivado em todas as regiões. Os maiores são do Paraná e Minas Gerais. De acordo com estudo da Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, as estimativas do setor é que, mesmo com campanhas, o crescimento no consumo projetado seja de somente 1,22% ao ano, até 2020, passando de 3,7 milhões de toneladas para 4,31 milhões de toneladas. As projeções, entretanto, indicam também a possibilidade de importação de feijão.

Fora do prato de cada dia

O estudante Pedro Alves, de 12 anos, conta que adora feijão. Como seus pais trabalham o dia todo, é ele que tem que se virar na cozinha para preparar o almoço, já que a irmã mais velha, Thais, de 18, não passa perto da cozinha.

“Meus pais preferem deixar alimentos rápidos de ir à mesa, como enlatados. Eu ainda não me arrisco a cozinhar feijão, por isso acabo ficando sem comer”, lamenta Pedro, dizendo que em almoços na casa de amigos, costuma tirar a barriga da miséria. “Aproveito para comer feijão”.

Já o pedreiro Aureliano Custódio, de 49 anos, conta que sua família, de seis pessoas, passou a comer feijão só aos domingos. “Custando mais de R$ 8 o quilo (alta provocada pela seca), não tenho como comprar para todos os dias”, justifica.

Cláudio Ferreira, Sheila Gomes e Antônio Morais, dois dos cozinheiros escolhidos a dedo pelo chef Thiago Castro para trabalhar na sua Elite Buffet & Eventos, dizem que o segredo do sucesso do feijão está na qualidade dos grãos e no tempo de cozimento, que varia de uma para a outra. “O resto é colocar muito amor no preparo”, ensina Sheila.

De alto valor nutricional a samba enredo

Seja carioca, preto, rajado, branco, entre outros, todos os tipos de feijão possuem alto valor nutricional e são capazes de prevenir várias doenças cardiovasculares, hepáticas, ósseas e coronárias. É que os grãos têm baixo nível de gordura e possuem óleos benéficos à saúde. São ainda ricos em fibras, carboidratos e proteínas vegetais.

Tema da novela Feijão Maravilha, em 1979, e cantado pela Caprichosos de Pilares no Carnaval de 1985, o feijão novamente promete balançar a Sapucaí em 2017. O enredo ‘Bota Água no Feijão’ homenagerá Tia Surica da Portela, pela Nação Insulana, atual campeã do Grupo de Acesso.

Receitas com feijão

Dicas de duas receitas recomendadas pelo chef Thiago Castro, O Rei da Feijoada, dono da  Elite Buffet.

FEIJÃO TROPEIRO

Ingredientes

500 g de feijão carioquinha cozido e sem caldo
200 g de bacon
125 g de linguiça de porco ou calabresa
125 g de torresmo de barriga
200 g de carne de sol
1 xícara (chá) de farinha de mandioca
1 cebola grande picada
3 dentes de alho picados
Couve cortada bem fininha sem o talo
6 ovos
Sal e pimenta-do-reino a gosto

Modo de preparo

Cozinhe o feijão em uma panela de pressão e reserve.
Em uma panela grande, coloque o torresmo para fritar. Quando ele estiver bem douradinho, reserve e deixe um pouco da gordura produzida por ele na panela, reservando o restante dessa gordura.
Na mesma panela, frite o bacon até dourar e reserve.
Em seguida, frite a carne com a cebola e o alho e deixe dourar.
Retire a carne e frite a linguiça e reserve.
Refogue a couve. Atenção: tudo sendo feito na mesma panela. Retire a couve e, se necessário, acrescente um pouco da gordura do torresmo pra fritar os ovos (mexidos).
Retire o ovo e torre a farinha. Quando a farinha estiver torrada, coloque todos os ingredientes na panela novamente e misture.
Quando essa mistura estiver bem encorpada, acrescente o feijão, tempere com a pimenta a gosto e está pronto para servir.

FEIJÃO GOURMET

Ingredientes

1 xícara (chá) de feijão preto de boa qualidade 
Aproximadamente 4 xícaras (chá) de água
1 cebola grande picadinha
10 dentes de alho amassados (socados)
2 folhas de louro
1 linguiça calabresa cortada em rodelas
200grs de bacon cortado em pedaços pequenos
2 colheres de sopa de Coentro picado
1 colher (sopa) de Salsa Picada
1 talo de alho Poró picadinho 
Sal e pimenta-do-reino a gosto
1 pedaço pequeno de casca de laranja

Modo de preparo

Lave bem o feijão e deixe de molho em água por aproximadamente 1 hora. Após escorra bem os grãos.
Na panela de pressão coloque os grãos e a água da receita,  a linguiça e o bacon cortados e deixe ferver na pressão por aproximadamente 30 minutos (esse é o tempo após ter iniciado a pressão).
Desligue e deixe perder a pressão da panela antes de abrir.
Após abra a pressão e deixe cozinhando em fogo baixo, para reduzir o caldo, enquanto finalizamos.
Em uma frigideira frite a cebola e o alho poró até estiverem esbranquiçados, adicione o alho e deixe dourar. Coloque 1 concha do caldo do feijão que está sendo cozinhado e deixe refogar alguns instantes.
Despeje o conteúdo da frigideira na panela e misture.
Adicione os demais temperos e prove para ver se o grão já está macio, neste momento aproveite também para ver a quantidade de água, pois algumas pessoas gostam de mais caldo e outras de menos, se quiser mais caldo acrescente mais água e deixe cozinhar até levantar fervura e reduzir o caldo e ficar com uma textura aveludada é um caldo tipo "chocolate".
Retire a casca da laranja.
Sirva a seguir com arroz branco.

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