Ocupação de sem-teto usa redes sociais para chamar a atenção em Volta Redonda

Prefeitura estuda projeto de habitação para 50 famílias

Por O Dia

Rio - Nada de fogo em pneus, em ônibus, fechamento de ruas e outros tipos de transtornos e violência. Pelo menos 50 famílias sem-teto que ocupam, desde o início do mês, uma vila em construção - e abandonada há cerca de seis anos pelo poder público - na Rua dos Mineiros, no bairro Belmonte, em Volta Redonda, no Sul Fluminense, acharam uma maneira moderna de chamar a atenção das autoridades e sociedade em geral para suas reivindicações: criaram um perfil no Facebook (Ocupação-Don-Waldyr-Belmonte), onde postam fotos da rotina no local, dão avisos, convidam a população para visitas e pedem ajuda com donativos e remédios.

A página é uma espécie de diário, mantida por amigos dos posseiros que apoiam o movimento, batizado de Ocupação Dom Waldyr Calheiros, em homenagem ao bispo que incansavelmente lutou pela reforma agrária pela Igreja Católica na região, morto em 2013. Uma logomarca, com desenho de uma família e o nome da ocupação, também foi criada. A ideia tem dado certo e já atrai apoios até de outros estados. 

Imagens do Facebook, criado para pedir ajuda para as 50 famílias de sem-teto que ocuparam vila abandonada em Volta RedondaReprodução

Nesta segunda-feira, representantes dos posseiros, que criaram o projeto “Minha Casa, Nossa Luta”, com regras para os ocupantes dos imóveis, se reuniram com o prefeito Samuca Silva (PV), em busca de solução para a possível retomada das obras de conclusão das moradias, que estão semi-acabadas, tomadas pelo matagal e desprovidas de sistemas de água, esgoto e energia elétrica.

Samuca pediu que o grupo apresenta um projeto de habitação para o local. Na sexta-feira, o integrante do Movimento Ética na Política (MEP), José Maria da Silva, o Zezinho, acompanhado dos padres Normando Cayovete e Arlindo Rodrigues, ambos da Diocese de Barra do Piraí-Volta Redonda, fizeram uma “visita de solidariedade” às famílias.

“A situação no acampamento é bastante precária. Qualquer tipo de ajuda, principalmente alimentos não perecíveis, colchões e roupas de frio, são bem-vindas”, apelou Zezinho, ressaltando que há também muitas crianças e alguns idosos. “É preciso urgência para a conclusão das moradias. O abandono das unidades semi-construídas reflete o descaso atual dos representantes do povo”, criticou Arlindo.

“Nossa preocupação também é que alguém seja picado por uma cobra ou escorpião. Muitos blocos de concreto que não foram utilizados até hoje, estão empilhados junto às paredes que ainda estão erguidas. O resto, torneiras, pisos, telhas, portas, janelas, foi tudo saqueado ao longo dos últimos anos”, lamenta uma posseira.

Pelas redes sociais igrejas, de diversas denominações, associações de moradodores e até um médico, de nome Jorge Couto, de Santa Catarina, dão orientações aos sem-teto. Couto, por exemplo, alerta para a colocação de cloro, em medidas adequadas na água consumida pelas famílias, lembrando ainda dos cuidados com o combate a vermes e doenças como diabetes e hipertensão.

Em nota na Internet, a Associação dos Docentes da Universidade Federal Rural do Rio (Adur-RJ) inciou campanha de arrecadação de alimentos e agasalhos, que estão sendo entregues na sede do Sindcato Estaudal dos Profissionais de Educação (Sepe), na Rua Luiz Alves Pereira, 305, Aterrado.

Coordenada

De acordo com o vice-prefeito e secretário municipal de Ação Comunitária, Maycon Abrantes, a prefeitura doou, no passado (ainda no governo de Antônio Francisco Neto (PMDB), o terreno onde começou a ser construída a vila ao governo do estado, que por sua vez, tinha a responsabilidade de construir as casas. Apenas dez delas, porém chegaram integralmente a ser concluídas. A parceria também envolvia o governo federal, que financiaria as moradias, por meio do programa Minha Casa, Minhas Vida.

“A intenção inicial era se construir um condomínio para terceira idade, que se chamaria Vila da Melhor Idade, só que o abandono foi tomando conta ao longo dos anos. Nosso papel, no atual governo, é de achar soluções para o quadro atual”, afirmou Maycon, elogiando a forma pacífica com que o processo está sendo conduzido.

Ele adiantou ainda que guardas municipais foram deslocados para o local para “protegerem os sem-teto”, e que as famílias estão sendo cadastradas. O vice-prefeito disse ainda que existe a prefeitura de o governo municipal assumir as casas. “Mas para serem sorteados, após concluídos, pelo programa Minha Casa, Minha Vida, junto com outras 25 mil famílias inscritas no programa”, advertiu.

“Somos famílias vindas de todas as partes da cidade. Estamos cansados de esperar moradia digna por cadastros e sorteios. Precisamos de ajuda concreta e definitiva agora”, disse uma das mulheres acampadas com dois filhos pequenos no local. Os governos estadual e federal não se manifestaram ainda.

Íntegra do manifesto dos sem-teto no Facebook

"Em uma cidade que teve 33% de suas terras vendidas na privatização da CSN o problema principal não poderia ser outro: espaço para morar. Nos Bairros há muita gente em estado de extrema necessidade, sem casa. Hoje há muitos apartamentos vazios e empreendimentos completamente abandonados, como o ocupado por nós.

Queremos casa, queremos essa terra para nós, mas queremos também ajudar a todos sem casas a terem os seus direitos a moradia e dignidade garantidos, denunciando o que poucos meios de comunicação têm coragem: Moradia não é mercadoria. Enquanto os latifundiários especulam com o imóvel, morre gente todo dia por falta de moradia.

Assim, queremos a propriedade das terras para que possamos morar, mas também não podemos nos furtar de exigir coisas como serviços públicos de qualidade e que:

1 – Seja cumprido o disposto na conferência municipal de direitos humanos (2016), erradicando o déficit habitacional;
2 – Restabelecimento do Aluguel cidadão;
3 – Regulamentação, desapropriação e IPTU progressivo das terras e imóveis sem função social, descritas no plano diretor da cidade;
4 – Criar e estruturar um Fórum provisório para resolver o déficit habitacional de Volta Redonda;
5 – Seja realizado um estudo pela Companhia de Habitação (COHAB), da real situação habitacional de Volta Redonda;
6 – Construção de novas casas, preferencialmente, pela COHAB ou pelo programa minha casa minha vida Instituição.;
7 – Regularização de todas as posses;
8 – Formação, incentivos e profissionalização da população e movimentos sociais para terem melhor acesso ao programa Minha Casa, Minha Vida."

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