Moradores de Benfica lamentam ver o lugar associado aos corruptos e à cadeia

Comerciantes garantem que há muitas outras coisas boas a divulgar

Por O Dia

Rio - Benfica não quer virar Bangu. Sem querer desrespeitar o tradicional bairro da Zona Oeste, moradores e comerciantes de Benfica andam temerosos com a possibilidade de o lugar se transformar em sinônimo de presídio.

Desde maio, quando chegou a primeira leva de políticos presos na Operação Lava Jato à Cadeia Pública Frederico Marques, especialmente o ex-governador Sérgio Cabral, apontado como chefe da organização criminosa que sangrou os cofres do estado, o nome do bairro ficou fortemente associado à prisão, o que tem preocupado quem mora e trabalha lá.

O comerciante Paulo Roberto Lemos%2C da Rua dos Lustres%2C lamenta a atual fama que o bairro ganhou com a chegada dos novos ‘moradores’Daniel Castelo Branco / Agência O Dia e Vitor Silva

"Benfica é a Rua dos Lustres. Benfica é a Cadeg. Mas, infelizmente está ficando atrelado ao presídio", lamenta Cláudia Aparecida, gerente da Benfica Iluminação. Segundo ela, os políticos aprontaram e a má fama recai sobre o bairro. "O lugar não pode ficar famoso por conta dos corruptos. Queremos que continue marcado como polo de iluminação do Rio de Janeiro. É um lugar de luz", afirma. "Sofremos com isso. É muito ruim levar essa fama", lamenta o dono da loja Estação da Luz 70, Paulo Roberto Lemos de Oliveira, de 69 anos, que tem comércio, há 25 anos, na Rua dos Lustres.

Presídio foi reformado para abrigar os presos da Lava Jato. Do lado de fora%2C porém%2C não houve melhoriaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

"Na verdade, a parte menos importante de Benfica é a cadeia", garante o diretor social da Central de Abastecimento do Estado da Guanabara (Cadeg). Ele ressalta que o bairro é um polo comercial e cultural de muitos anos. "A Rua dos Lustres é de 1930. A Cadeg foi inaugurada em 9 de janeiro de 1962. Benfica tem muitos lugares para serem explorados", garante Lobo. Ele, inclusive, lamenta o fato de muitos cariocas não conhecerem, ainda, o mercado municipal de sua cidade. "É como uma identidade. Toda cidade importante tem seu mercado municipal, que mostra suas raízes", explica Lobo, afirmando que "Benfica não é cadeia. Benfica é Cadeg".

Importante centro de abastecimento%2C a Cadeg também se destaca pela gastronomiaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Morador do bairro há 74 anos, o servidor aposentado da Justiça Federal, José Bernardo Nunes, 80, é outro que se mostra inconformado com o estigma que estão criando para o bairro. "É desonroso. Benfica virou sinônimo de cadeia. Benfica é um bairro bom", diz Nunes, que se confessa preocupado com a desvalorização do lugar onde cresceu.

Monumento arquitetônico

Além da Cadeg e da Rua dos Lustres, Benfica é o endereço de um dos ícones da arquitetura brasileira: o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes. É uma das construções históricas da cidade. O projeto é do laureado arquiteto Affonso Eduardo Reidy e impressiona. O prédio tem seu traçado serpenteado e fica localizado no alto de uma encosta, na localidade conhecida como Pedregulho. É um monumento de 260 metros de comprimento, com 272 apartamentos. Mas, o seu formato lhe rendeu um apelido de gosto duvidoso: Minhocão de Benfica. É uma boa dica de passeio para os que pensam em visitar os políticos presos na Cadeia Pública.

Do lado de fora da Cadeia não foi feita nenhuma reforma sequer

O Governo do Rio gastou dinheiro embelezando e tornando mais confortável a Cadeia Pública José Frederico Marques, para acolher os presos da Operação Lava Jato. Mas, do lado de cá dos muros, nada foi feito para melhorar a vida de moradores e comerciantes que vivem no entorno do presídio. Segundo eles, a chegada dos "hóspedes" só aumentou o movimento de carros de luxo e o estacionamento irregular na Rua Célio Nascimento, em Benfica.

Ícone da arquitetura%2C o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes foi projetado por Affonso Eduardo ReidyDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

"Eu preferia quando era o BEP (Batalhão Especial Prisional, cadeia exclusiva para policiais militares), porque o movimento no meu restaurante era maior", garante Ricardo Ribeiro, 48, dono do Bar do Ricardo, em frente ao presídio. Ele reclama que os visitantes dos "hóspedes" não compram nada no seu estabelecimento. "Eles já chegam com as suas sacolas de coisas".

Já um morador, que preferiu não ter o nome citado, explicou que o perfil de visitantes mudou para melhor. "Agora, são pessoas bem arrumadas e perfumadas. É um público diferente do que a gente estava acostumado a ver por aqui". Além da Cadeia Pública, outras duas unidades prisionais funcionam no local.

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