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Anjo da guarda e Porteiro

Contraponto a caso de cadeirante que teve que recorrer à Justiça para ser auxiliada em prédio de Minas, Rio está cheio de bons exemplos

Por FRANCISCO EDSON ALVES

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Com quase 90 anos, Décio Coimbra, cadeirante do Edifício Bougainville, no Leblon, Zona Sul do Rio, pouco fala, mas seus olhos enchem d`água toda vez que recebe a ajuda dos porteiros José Neto, 50, e João Alves, 60, para manusear a sua cadeira de rodas. "O olhar de agradecimento dele é comovente. Me seguro para não chorar também, mas, às vezes, não consigo", confessa João, um dos seis porteiros que se alternam em turnos nesse tipo de troca de emoções no imóvel.

Na Tijuca, Zona Norte do Rio, Marizete Lemos, 50, síndica de um prédio na Rua Conde de Bonfim, não esquece de levar um pudim para o zelador Marley Furtado, 65, quase todos os dias. O mimo é pelas correspondências dos mais de 70 moradores que ele gentilmente separa e guarda todos os dias. "Além disso, ele é um doce de pessoa. Está sempre disponível para qualquer emergência", justifica Marizete.

Os exemplos de boa relação entre porteiros, síndicos e moradores do Rio, que já viraram temas de livros e são relatados em filmes, contrastam com a convivência às vezes conturbada entre inquilinos e a categoria em outros pontos do país.

Em Juiz de Fora (MG), por exemplo, a cadeirante Ana Camponizzi, 59, ganhou na Justiça o direito de ser ajudada por porteiros a subir da íngreme rampa da garagem aos elevadores, no prédio onde mora. Os porteiros, conforme o jornal Folha de São Paulo mostrou recentemente, haviam sido proibidos de ajudá-la dentro do condomínio, sob a alegação de que se tratava de uma 'questão de natureza privada'. Ela ainda será indenizada em R$ 46 mil por danos morais. A administração do prédio ainda terá de instalar uma plataforma elevatória, orçada em R$ 39 mil.

Para o presidente do Sindicato dos Empregados em Edifícios e Condomínios do Rio de Janeiro (SEEM-RJ), Carlos Antônio de Oliveira, o Carlinhos, a duradoura "lua de mel" entre os mais de 70 mil porteiros dos 130 mil profissionais que a entidade abrange na capital e Região Metropolitana e que envolvem ainda zeladores, vigias e pessoal de limpeza -, deve-se aos constantes treinamentos e reciclagens que orientam o bom atendimento aos condôminos. "Sem contar que mais de 60% desses trabalhadores são migrantes do Nordeste. Ou seja, são pessoas que naturalmente amam o que fazem", assegura Carlinhos. "Aqui (no Bougainville), vivemos em harmonia. Somos todos uma família", resume o síndico Moysés Braunstein.

Qualificação é importante

Para o diretor do SEEM-RJ, Divanilson Luiz Almeida, cortesia e atenção com os moradores são atitudes sempre recomendadas pelo sindicato. "Tem que haver cumplicidade dos dois lados. No dia a dia, os porteiros são os olhos dos moradores. Não adianta um edifício ter porteiro virtual, por exemplo, se não tiver uma pessoa na portaria que possa tomar atitudes imediatas. Os porteiros estão sempre na linha de frente, muitas vezes em situações de risco e violência, de emergências, de socorro", justificou Divanilson.

"Procuramos elevar a autoestima dos porteiros em nossos cursos regulares de segurança predial, por onde já passaram mais de 300 profissionais. Enfatizamos a importância da função deles, mostrando que eles não servem só, como diria o porteiro Severino (personagem mais famoso do ator Paulo Silvino), para verificar cara e crachá. A presença deles em qualquer imóvel é de fundamental importância", ressaltou um dos coordenadores do curso, o sargento do 3º Batalhão da Polícia Militar (Méier) Ottílio de Oliveira, de 46 anos, há 20 na corporação.

As instruções, gratuitas, orientam os porteiros a como agir, de maneira segura, rápida e eficaz, diante de assaltos, arrastões e outras situações que coloquem a vida deles e dos moradores em perigo. "Como confirmar a identidade de um visitante ou entregador de remédios, pizzas ou flores; verificar se o morador, de fato, está esperando encomenda; e nunca ficar do lado de fora do edifício com as chaves nas mãos", ressalta Ottílio de Oliveira.

O Sindicato da Habitação do Rio (Secovi-RJ) promoverá, entre os dias 21 e 24 de maio, ao custo de até R$ 390, o curso 'Qualidade nos Serviços de Portaria'. Informações disponíveis em www.secovirio.com.br.

Pesquisa mostra que renda bruta é, em média, de R$ 2,6 mil

Num levantamento inédito, o Grupo Bradesco Seguros mostrou, ano passado, o perfil do porteiro que atua no Estado do Rio de Janeiro. O estudo apontou que a categoria tem atuação voltada, principalmente, para a segurança dos condomínios. A pesquisa revelou que a maioria dos profissionais da área possui o Ensino Médio e renda bruta em torno de R$ 2,6 mil.

Também ficou explícito, na opinião dos moradores, que a qualificação se traduz em bom atendimento. De cada dez porteiros entrevistados, quatro disseram ter feito algum curso de aperfeiçoamento. Durante as entrevistas, os porteiros, por sua vez, consideraram que a função deles ainda é pouco valorizada, alertando que os condôminos ainda os enxergam (70%) tão somente como garantidores de segurança.

A empresa ouviu 500 pessoas no Rio, São Paulo, Minas Gerais e Espirito Santo. O levantamento ressaltou ainda que os moradores associam a função de porteiro com o ato de 'entregar encomendas' (22%), 'carregar comprar' (20%), 'realizar pequenos reparos e distribuir correspondências' (18%).

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José Neto (blusa social) é anjo da guarda em edifício do Leblon: ele tem a gratidão dos moradores Alexandre Brum
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