Dependência das usinas térmicas se manterá até o próximo ano

Apesar da queda no consumo de energia elétrica e no risco de racionamento, nível de reservatórios pelo país ainda preocupa

Por O Dia

Rio - A desaceleração da atividade econômica, especialmente da produção industrial — que acumula retração de 4,5% nos últimos 12 meses, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — e o aumento da tarifa cativa de energia elétrica têm ajudado e vai continuar ajudando o país a passar o ano longe do risco de racionamento. Mas, segundo especialistas, o baixo nível dos reservatórios e as perspectivas de menor incidência de chuvas no período seco, de abril a maio, mantém indispensável o uso das térmicas, até 2016.

Dados de 1º de abril do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que o nível dos reservatórios na região Sudeste/Centro-Oeste está em 28,81%. Em condições normais, para abril, o nível estaria em 80%. “Ainda vamos ficar muito dependentes das térmicas, que continuarão ligadas no limite. A recuperação dos reservatórios em março foi muito tímida, comparada à necessidade”, avalia o presidente da comercializadora de energia Comerc, Cristopher Vlavianos.

“Estamos na pior seca dos últimos 60 anos. Não se pode montar um sistema à prova de um risco hidrológico que acontece de 60 a 60 anos, é inviável economicamente. Por isso, avaliamos que, até o ano que vem, o país dependerá do uso das térmicas”, acrescenta o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da UFRJ, Nivalde de Castro.

Em relatório preliminar de vazões, divulgado na última semana, o ONS reduziu a expectativa de chuvas que chegarão às represas de hidrelétricas das regiões Sudeste e Nordeste em abril. A projeção, que estava em 95% da média histórica, caiu para 88%. Enquanto isso, a previsão para o Nordeste passou de 62% para 59% da média deste mês. O documento, porém, melhorou a estimativa de vazão para as regiões Sul e Norte em abril, que passaram a 115% e 91% da média histórica ante 88% e 87%, respectivamente.

“O governo conta com a redução do consumo residencial e comercial, já que o industrial caiu 3,5% em 2014 e deve se manter baixo este ano”, diz Vlavianos. Segundo o executivo, nos últimos anos o consumo residencial e comercial médio cresceu entre 5% e 7%. No entanto, o aumento do custo da tarifa cativa — que reúne o reajuste tarifário extraordinário, ordinário e a bandeira vermelha — será um forte limitador.

“No ano passado, as distribuidoras garantiram um reajuste que variou entre 10% e 40%. Este ano, já tivemos um aumento em função da aplicação da bandeira vermelha, que subiu de R$ 3 para R$ 5,50 a cada 100 kWh. Em fevereiro, houve reajuste tarifário extraordinário e algumas distribuidoras tiveram adicional de 40%. Agora, nesta semana, vamos ter os ordinários. Embora não se tenha uma previsão clara, a Agência Nacional de Energia Elétrica tem falado de um reajuste perto de 10%”, acrescenta Vlavianos.

Para Nivalde de Castro, o governo tem se esforçado para reverter a crise e, principalmente, o racionamento — através da importação de energia do Uruguai e da Argentina, da análise de leilões de energia para horário de ponta, e do aumento do uso das linhas de transmissão no Linhão Norte-Sul. “Geralmente se tem duas linhas de transmissão e uma de reserva. Agora, durante a noite, eles vão colocar também a terceira linha para ser utilizada, trazendo energia do Norte para o Sudeste, e do Nordeste para o Sudeste”, explica.

Segundo o professor da UFRJ, o momento político mais delicado também tem aumentado a vigilância e a busca por soluções que vão além da simples espera por chuva. “Na avaliação do nosso grupo, o governo vai fazer o possível e o impossível para não ter racionamento. Este seria mais um componente para alimentar a crise política pela qual o país já passa”.

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