'Perto da gravação de Jucá, a minha é uma Disney', diz Delcídio do Amaral

Acusado de tentar obstruir investigações, ex-senador teve cassação acelerada após cartada do ministro licenciado

Por O Dia

Brasília - O último ato que levou à cassação do ex-senador Delcídio do Amaral veio de Romero Jucá, o ministro do Planejamento que foi oficialmente exonerado do cargo nesta terça-feira. Acusado de tentar obstruir as investigações da Lava Jato, Delcídio teve sua cassação acelerada após uma cartada do peemedebista, que apresentou um requerimento de urgência para a realização da votação. Agora, é ele quem foi flagrado em uma gravação tentando travar as mesmas investigações.

"Depois da gravação do Mercadante, Lula e Dilma e essa agora do Jucá, com todo respeito, a minha conversa é uma Disney, uma grande brincadeira", afirmou Delcídio, em referência aos recentes grampos que tornaram públicas supostas tentativas de impedir o funcionamento da Justiça.

Para o ex-senador Delcídio do Amaral, a ação de Jucá foi muito mais explícita e comprometedoraMarcos Oliveira/Agência Senado

O ministro Mercadante foi flagrado pelo próprio assessor de Delcídio enquanto supostamente oferecia vantagens para comprar o silêncio do senador. Dilma e Lula foram grampeados em diálogo rápido que sugeriu que a nomeação do ex-presidente à Casa Civil era uma manobra para evitar sua prisão. Jucá sugeriu para Sérgio Machado uma mudança no governo para "estancar" a Lava Jato. Delcídio, por sua vez, foi pego tramando um plano de fuga para o ex-diretor da Área Internacional da Petrobras Nestor Cerveró.

As comparações foram muitas. Em protesto durante a ida de Temer e Jucá ao Senado na tarde de segunda-feira, deputados petistas e servidores do Congresso levaram placas com os dizeres "Jucá = Delcídio: Prisão e Conselho de Ética Já!".

Para o ex-senador, a ação de Jucá foi muito mais explícita e comprometedora do que a sua. "Ele fala de tudo e por muito menos eu fui pro saco. Ele cogita uma mudança de governo para se fazer um pacto contra a Lava Jato. É absurdo!". Delcídio cobrou pedido de cassação de Jucá, que reassume seu cargo no Senado após a licença, mas que seja dado a ele o direito de defesa que, segundo o ex-petista, ele próprio não teve.

Romero Jucá durante coletiva em que se defendeu da acusação de obstruir Lava JatoAntônio Cruz/Agência Brasil

O ex-líder do governo Dilma no Senado também analisa que o diálogo entre Jucá e o ex-presidente da Transpetro demonstra mais do que uma atuação solo, mas uma ação "institucionalizada". "O que essas gravações provam é que há uma obstrução de justiça institucionalizada, a nível presidencial e no Legislativo. Uma obstrução de justiça em cima de um pacto que passa pelo afastamento de uma presidente, isso é muito grave."

Para o ex-senador, a gravação de Jucá transmite a ideia de que não havia argumento constitucional para o impeachment de Dilma e que os motivos eram outros.

Ministério

Delcídio não quis se comprometer em dizer se Jucá deveria ou não ser preso, dada a semelhança do caso com o seu. Mas apostou que o senador licenciado não volta mais ao ministério. "Ele não devia nem ter sido nomeado. Não tem condições [de retornar]. Com essa gravação, o Romero se inviabilizou" avaliou.

Deputados petistas e servidores do Congresso exibiram placas com os dizeres "Jucá %3D Delcídio"Lula Marques/Agência PT/Fotos Públicas

O ex-senador lembrou que Jucá já teve outra curta passagem no cargo de ministro, à frente da Previdência em 2005, na gestão Lula. Sob pressão de denúncias, ele deixou a pasta em menos de quatro meses. "Essa indicação também foi um equívoco e durou muito pouco. Romero, o Breve", brincou Delcídio.

Impeachment

Na avaliação do ex-líder do governo, a revelação do diálogo de Jucá tem o seu peso, mas não será suficiente para reverter o processo de impeachment em curso no Senado. "A gravação deu munição, é um discurso muito forte para a base parlamentar da Dilma, mas não reverte o impeachment por questões absolutamente práticas", analisa. Para Delcídio, o governo Dilma está inviabilizado politicamente, sem condições gerenciais.

Fonte: iG

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