Luiz Inácio avisou (II)

Até as eleições de outubro de 2018, muita água vai correr. E todos os eventuais candidatos, a exemplo do mal que aflige o PT, vão ficar mais velhos

Por O Dia

Em viagem oficial ao Rio ontem, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o ex-presidente Lula tem todo o direito de criticar o PT. Com sua frase curta e grossa tentou enterrar de uma cajadada só a boataria sobre ruídos nas relações com seu padrinho político. Cá entre nós, Dilma tem toda razão. Se existe alguém com autoridade inquestionável para falar dos problemas do Partido dos Trabalhadores é Lula. Fundador do partido e sua maior estrela, o ex-presidente conhece o PT nos menores detalhes e, por isso mesmo, sabe como ninguém onde o bicho está pegando nestes dias de crise — ou de decadência, como dizem os inimigos da legenda. O diagnóstico de Lula pode causar desconforto, mas é certeiro. Diz ele que o PT hoje só pensa em cargos, em empregos. Diz também que o partido perdeu um pouco a utopia. “Eu lembro como é que a gente acreditava nos sonhos, como a gente chorava quando a gente mesmo falava, tal era a crença”, lamentou-se, em palestra em São Paulo.

Na mesma linha de raciocínio, Lula afirmou que “o PT está velho”. E citou o próprio exemplo: “Eu, que sou a figura proeminente do PT, já estou com 69 anos, já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que eu falava em 1980”. O recado do ex-presidente, obviamente, é dirigido às fileiras da própria legenda. É preciso mudar e renovar os quadros (“fico pensando se não está na hora de fazer uma revolução neste partido”, meditou em público). Dizem os teóricos da conspiração que, com sua autocrítica, Lula quer se descolar do governo Dilma. Estaria pavimentando um caminho pessoal e autônomo para a sucessão de 2018. Mas quem conhece bem as relações de criador e criatura vê de outra maneira o jogo da verdade de Lula. Ao atacar o conformismo e a inércia do PT, o ex-presidente tenta ajudar a presidente Dilma, que se tornou dependente do PMDB.

Para usar um trecho de música citado por Dilma Rousseff em entrevista recente à “Deutsche Welle”, Lula está provocando seus companheiro a sacudir a poeira e dar a volta por cima. Afinal de contas, como dizem fontes do Palácio do Planalto, “o governo é o PT, o governo é Dilma, o governo é Lula”. Não adianta, portanto, apostar em conflito entre Lula e Dilma. Ou os dois, com o apoio do PT, conseguem voltar ao nível acima do “volume morto” ou vão ver suas reservas de popularidade no fundo do poço. O desgaste é enorme por motivos mais do que conhecidos. Não bastassem o mensalão e a Operação Lava Jato, a economia desandou de vez. O mau momento do PT é um prato cheio para a oposição. Se a eleição fosse hoje, as intenções de voto apontam Aécio Neves à frente de Lula, por dez pontos, segundo o Datafolha.

É época de festas juninas, mas seria um erro dos tucanos apressar o início das comemorações. Faltam mais de três anos para as eleições. O páreo está aberto e não faltarão inscrições. O governador Geraldo Alckmin está na espreita, o prefeito Fernando Haddad anima alguns petistas e a ex-senadora Marina Silva não descarta sua terceira tentativa. Por mais improvável que seja, mesmo o PMDB acena com candidatura própria. Fala-se de Michel Temer, e há quem diga que Eduardo Cunha começou a sonhar com a presidência da República. Até outubro de 2018 muita água vai correr. E todos os eventuais candidatos, a exemplo do mal que aflige o PT, vão ficar mais velhos. O tempo não para.

Últimas de _legado_Notícia