Suposta censura em site de homenagem ao Rio provoca polêmica

Autores tiveram seus textos cortados e não sabiam

Por O Dia

Após matéria publicada pelo DIA, no domingo, a antologia poética transmídia do site ‘Rio: Passagens’ (www.riopassagens.com), que estreou nesta segunda-feira, já nasceu órfã de dois contos. Para os autores que ficaram de fora, o colunista do DIA Fernando Molica e o escritor Marcelo Moutinho, o motivo se resume à palavra censura.

Já Vitor Jatobá, produtor executivo do site criado pela Arrastão de Ideias e patrocinado pela secretaria municipal de Cultura, com verba de R$ 149 mil, justifica: “Os textos não estavam de acordo com o projeto.”

Fotografia de Vitor Jatobá batizada como ‘Parabaixo’Vitor Jatobá

Até o fim de semana, ‘362’, assinado por Moutinho, e ‘Tamborim’, de Molica, ainda faziam parte do site. Os contos foram escritos para fazer parte da antologia inspirada na cidade do Rio, em comemoração ao aniversário dos seus 450 anos.

Às vésperas do lançamento na rede, eles tiveram acesso a um link provisório de ‘Rio: Passagens’ e só então descobriram que suas histórias tinham sofrido diversos cortes.

“Fui ouvir o áudio do conto e percebi que faltava uma frase que falava de mulher da vida, puta. Liguei para o Vinicius Jatobá (irmão de Vitor e editor do projeto que une os textos a áudio, traduções, fotos e ilustrações) e ele me disse que o site tinha que ter censura livre e palavrões poderiam causar problemas”, conta Moutinho, que questiona o fato de não ter sido comunicado sobre a edição do conto, entregue por ele no dia 22 de agosto, quase quatro meses atrás.

“Cortaram seis frases, um total de 27 palavras. Caso me consultassem, poderiam mudar algumas palavras, mas o Vitor disse que não tinham tempo hábil para trocar”, lembra Moutinho. Ele avisou a Molica, que constatou 36 alterações em ‘Tamborim’.

“Não dá para me ligar no domingo à noite e dizer que tenho que mudar. O que pude fazer foi não publicar. Mas eles estão fechados para conversa. Não sou censor”, rebate o produtor executivo. Ele justifica os cortes: “Tiraram os palavrões, pois estamos querendo levar o projeto para escolas e outros países, como a China. Isso não seria bem aceito.”

Molica rebate. “Eu reclamei ao descobrir as mudanças, no início da madrugada de domingo. Eles é que se mostraram fechados para conversa. Só fizeram o primeiro contato por volta das 16h30 do domingo, e se negaram a fazer qualquer alteração. Em nenhum momento tinham falado em limitação no uso de qualquer palavra”, diz.

Mas, para os autores, o problema não se restringe aos palavrões. “Não foi só por isso. Tiraram partes como a em que eu falava do sotaque paulista. Qual o padrão editorial deles? Ninguém nos falou sobre isso. Pelo próprio formato e tamanho dos contos, percebe-se que não são destinados a crianças”, argumenta Molica.

“Eu disse que exigia a troca, em um primeiro momento, apenas no texto em português. Mas não adiantou.”

Aos poucos, outros autores, como Sergio Leo, que assina o conto ‘Céu na Terra’, publicado pelo site nesta terça-feira, começaram a perceber os cortes.

“Eu fui prevenido, há poucos dias, de que haveria ajuste no tamanho, por questões técnicas, e havia dado sinal verde, com o compromisso de não alterar substancialmente o conto”, disse o escritor. “Só hoje de manhã pude ver o resultado e havia uma mudança no fim do conto inaceitável. Eu disse que preferiria não publicar nada daquela forma, e foi restabelecido o final original.”

Em resposta a uma publicação sobre o ocorrido na página do Facebook de Moutinho, o secretário municipal de Cultura, Sérgio Sá Leitão, escreveu: “Vou pedir uma explicação aos responsáveis. Mas desde já me posiciono contra qualquer tipo de censura ou de mutilação e intervenção sobre obras de arte.”

Com o financiamento de R$ 149 mil repassado para a produtora Arrastão de Ideias em 30 de dezembro de 2013, segundo o site ‘Rio Transparente’, até agora alguns autores não foram pagos. Um deles é Molica, que divulgou em seu Facebook um e-mail de Vitor em que ele afirma que não o pagaria, já que seu texto não seria mais publicado.

Procurado pelo DIA, o produtor nega. “O dinheiro dele está separado, até porque, se eu deixar de pagar, quem vai avaliar isso é a prefeitura, a quem eu tenho que prestar conta”, declarou.

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