Luiz Antonio Simas: A última morada

Liderança: 'Sou craque na gestão de velórios e enterros'

Por O Dia

Rio- Tenhho atributos de liderança. O problema é que manifesto esse talento apenas em assuntos fúnebres. Sou craque na gestão de velórios e enterros. De resto sou incapaz até de organizar piquenique.

Quando minha avó foi oló, escolhi o caixão. O corretor funerário apresentou-me algumas opções em um book de fotos (a expressão foi dele) com urnas de todos os jeitos e nomes incríveis: Copacabana, Leblon, Ipanema, Leme, Guarujá. Na hora tive breve momento de confusão mental e achei que o sujeito quisesse enterrar minha avó dentro de uma piscina Tone, a alegria da garotada. Desfeito o engano, fui em frente.

Inicialmente me foi oferecida a urna Leblon. O caixão só faltava ter sonoplastia com diálogos das novelas do Manoel Carlos e custava mais que o meu apartamento. Gourmetizaram a morte.

Diante do risco da minha avó ressuscitar para me dar esporro se eu comprasse um caixão com aquele preço, fui negociando até chegar aos municípios da Baixada Fluminense. Encontrei uma urna dentro das possibilidades financeiras da família.

Dia desses soube que funerárias oferecem agora um tal de modelo Búzios de caixão. A propaganda fala o seguinte: design arrojado, revestimento em madeiras nobres do Brasil, mármore romano, interior acolchoado, som ambiente e refrigeração interna. Imagino que o som e o ar-condicionado sejam importantíssimos para o futuro feliz do defunto. É, enfim, um caixão personalizado. Sai pela bagatela de duzentos e cinquenta mil reais.

Impressionado com o caixão Búzios, fiz pesquisa de mercado e descobri que existe na Alemanha um museu de cultura sepulcral que expõe caixões personalizados do mundo inteiro. O visitante pode, inclusive, comprar o seu. Tem em forma de tudo: caçamba de lixo, peixe, girafa, garrafa de cerveja, submarino, forte apache, LP dos Beatles, nave espacial e telefone celular.

Não consegui definir o que mais me agrada — a princípio ser enterrado em um forte apache, vestido de índio dos filmes do Velho Oeste, me pareceu interessante, mas pouco brasileiro para meu perfil de consumidor. A nave espacial merece exame mais cuidadoso e a cerveja eu prefiro mesmo beber.

Adiarei a decisão por uns bons cinquenta anos, já que não tenho pressa em relação ao assunto e não pretendo morar em Búzios tão cedo.

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