Luiz Antonio Simas: Lição de Pedagogia

Minha criação honrou a tradição da família. Boa parte dos pavores que tive foram incutidos pela minha tia Lita

Por O Dia

Rio - Meu avô nasceu em Pernambuco e foi educado com rigor pelos pais. Sofria, quando aprontava alguma, a ameaça de ser entregue ao psicopata tarado Febrônio Índio do Brasil, sujeito que estuprou e matou dois garotos em 1927. 

Doido de pedra, Febrônio foi o primeiro paciente do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro. Meu velho, que fora também ameaçado pelo pai de ser vendido por uns merréis ao bando de Lampião, não tinha medo do cangaceiro, mas se pelava todo ao ouvir a sentença: Então vou te entregar hoje mesmo, e de graça, ao Febrônio Índio.

Minha criação honrou a tradição da família. Boa parte dos pavores que tive foram incutidos pela minha tia LitaAgência O Dia

Minha criação honrou a tradição da família. Boa parte dos pavores que tive foram incutidos pela minha tia Lita, de saudosa memória, mas com um humor do cão. Cuidou muito de mim. Para evitar que eu saísse sozinho, falasse com estranhos, aceitasse balas na rua e coisas do gênero, ela ameaçava:

— Vão te sequestrar. Vão fazer com você a mesma coisa que fizeram com o Carlinhos Ramirez.

O Carlinhos foi um garoto lourinho e sardento raptado na Rua Alice, em Laranjeiras, nos anos 70. O sumiço do petiz gerou comoção nacional. Vivi um bom tempo atormentado por uma certeza inapelável: eu seria vítima dos sequestradores do Carlinhos.

Ainda que o sequestro me apavorasse, o grande pânico da minha infância foi outro: eu também seria enterrado vivo, como o ator Sérgio Cardoso.

Corria o boato de que Sérgio Cardoso — que à época da morte fazia sucesso em uma novela da Globo e era interprete de Shakespeare no teatro — sofria de catalepsia e fora enterrado vivo. Dizem que, após o enterro, os funcionários do cemitério começaram a escutar gritos oriundos da sepultura.

Depois de muita gritaria,alguém levantou a lebre: Sérgio Cardoso queria sair do caixão. Os coveiros, assombrados com a hipótese, resolveram abrir a urna. A cena teria sido horripilante: o corpo estava revirado e a tampa do caixão arranhada; sinais de que o defunto shakespeariano tentara escapar. A notícia, apesar dos desmentidos oficiais, se espalhou feito mato.

Quando fui, assustadíssimo, perguntar sobre o fato, esperançoso em ouvir um desmentido, escutei da minha tia, com ar de absoluta serenidade, apenas o seguinte:

— Muitas pessoas são enterradas vivas e ninguém sabe. Quase todas.

Era mesmo uma pedagoga nata, a tia querida.

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