Rico Dalasam e MC Queer fazem música em defesa dos homossexuais

Cantores têm em comum o fato de serem paulistas e unirem militância LGBT a beats dançantes

Por O Dia

O luxo de Rico Dalasam Divulgação

Rio - Rico Dalasam, rapper, e MC Queer, funkeiro, têm em comum o fato de serem paulistas e unirem militância LGBT a beats dançantes. O primeiro lança o álbum de estreia ‘Orgunga’ (sigla derivada das palavras “orgulho negro e gay”) e o outro, preparando um EP, soltou o single ‘Fiscal’ em maio, com repercussão suficiente para liderar o top de músicas virais do ambiente de streaming Spotify. Temas como reação à violência e autoaceitação são caros a ambos. “Cada vez que um semelhante meu morre, é um pouco de mim que morre”, lastima Rico, referindo-se ao ataque à boate gay Pulse em Orlando, nos Estados Unidos, ocorrido na semana passada, e que matou 50 pessoas.

“Esse ataque poderia ter acontecido num show meu. A gente vai a um lugar onde pode haver certa liberdade e acontece um lance desses...”, lamenta Rico, que aliás se chama Jefferson Ricardo Silva, (o “Dalasam” é uma sigla para Disponho Armas Libertárias A Sonhos Antes Mutilados).

Já no clipe de ‘Fiscal’, Queer (aliás o publicitário Felipe Cagnacci, 31) e o elenco do vídeo, formado por gays, lésbicas e transexuais, posam com várias lâmpadas fluorescentes, numa referência ao episódio em que gays foram atacados por rapazes com lâmpadas na Avenida Paulista, em 2010. A música tem versos como “chegou o fiscal de amor (...)/quebra lâmpada na cara pra não enfiar na b...”.

“A ideia não é de violência, é de não ter vergonha de ser gay. Tá na hora de a gente ser o mais gay possível. Eu quis atingir a ala mais conservadora, que é nociva e cerceia nossa liberdade”, conta, dizendo que já sofreu ameaças. “Mensagens do tipo ‘a gente já sabe onde você mora e vamos te matar’”.

Considerado expoente brasileiro do queer rap (que nos Estados Unidos tem Le1f e a drag Dai Burger), Rico veio das batalhas paulistanas de hip hop que geraram Projota e Criolo. “Eu já escrevia com 15 anos. Ia nas batalhas, trocava ideia. Não havia espaço para a rima que eu faço hoje. Ficava no meu canto, rolava um ‘ah, ele é gay’, ‘ele trabalha com moda’. Também não beijava ninguém na batalha. Comecei a viver minha sexualidade aos 14 anos”, conta Rico, ex-cabeleireiro e produtor. Em dezembro, lançou ‘Aceite-C’(“ainda é tempo de ser quem se é/tempo de ser quem se quer”).

“Lancei para ver se gerava frutos. Recebi muito inbox, Emicida, que eu não falava fazia tempo, trocou ideia”, lembra Rico, voltado para um rap mais ensolarado e mais dançante do que o costumeiro no Brasil, em músicas como ‘Esse Close Eu Dei’ (do verso “sente esse calafrio, bee”), ‘Honestamente’ e ‘Riquíssima’. “É música para celebrar, para mover o corpo na direção das ideias. Hoje atitude não é enfiar o boné inteiro na cara, é fazer o que eu faço”. Recentemente trabalhou com o Jota Quest num remix da faixa ‘Blecaute’. “Estamos descobrindo quem é nosso público”, conta Dalasam, sem dispensar influências de estilos como axé e pagode. “Era o que tocava quando comecei a ouvir música”.

MC Queer na capa do single ‘Fiscal’Divulgação

Queer teve a ajuda do Maestro Billy, do ‘Caldeirão do Huck’, para concluir seu funk. “Inicialmente ‘Fiscal’ era um poema. Liguei para o Billy, que é meu amigo, com a ideia de produzir uma faixa com isso. Não fizemos nenhuma estratégia. Íamos divulgar quando saísse o clipe. Mas quando saiu a música muita gente queria saber o que era aquilo. Escolhi o funk porque teria mais capilaridade”, conta Queer. “O dinheiro dos direitos de ‘Fiscal’ irá para a construção de um abrigo para gays expulsos de casa, na periferia de São Paulo”.

E Dalasam e Queer,se conhecem? Rico usou as redes sociais para conversar com Queer sobre ‘Fiscal’. “Aquele ‘tem que ser muito macho para poder dar o próprio c(*)’ da letra, eu acho equivocado. Ninguém tem que ser ‘muito homem’, a pessoa tem que ser é ela própria”, conta Dalasam. MC Queer é fã do rapper. “A conversa foi bastante respeitosa. Mesmo com as diferenças, a gente se une. E e a ideia de ‘Fiscal’ foi usar a linguagem do opressor, botar uma carga de ironia”, diz.

Últimas de Diversão