Musical sobre Cartola estreia no Teatro Carlos Gomes

‘Cartola — O Mundo É Um Moinho’ leva convidados todas as quintas-feiras, como as Velhas Guardas das escolas, e encerra com um samba-enredo feito com exclusividade por Arlindo Cruz

Por O Dia

Flávio Bauraqui interpreta Cartola em musicalDivulgação

Rio - “Escravizaram assim um pobre coração/ é necessário a nova abolição/pra trazer de volta a minha liberdade”. O trecho é da música ‘Autonomia’, de Cartola (1908-1980), uma das preferidas do ator Flávio Bauraqui. A partir de hoje, ele encarna no palco do Teatro Carlos Gomes aquele que é considerado um dos maiores ícones do samba no musical ‘Cartola — O Mundo É Um Moinho’.

“Esse convite veio da Nilcemar (Nogueira), neta do Cartola (atual secretária municipal de Cultura). Ela já tinha pensado em mim, e me encontrei com os produtores do espetáculo há alguns meses. O Cartola já fazia parte da minha vida. Havia feito o sambista em ‘Obrigado, Cartola’ (espetáculo de 2004, que o ator protagonizou no Centro Cultural Banco do Brasil). Fiz ainda uma participação na minissérie ‘JK’ (2006), também no papel do compositor. Esse encontro continua me rendendo muita coisa”, conta Flávio, que impressiona pela semelhança com o mestre em cena: “Estudei o jeito dele de falar, de andar, o universo que o envolveu. É homenagem e não micagem, tem que cuidar”, diverte-se.

Com dramaturgia de Artur Xexéo, o espetáculo desembarca no Rio depois de uma bem-sucedida temporada em São Paulo. A trama parte de um meio familiar para o ‘Poeta das Rosas’: uma escola de samba que desenvolve um enredo sobre o cantor e compositor. Em cena, a história passeia por fatos marcantes de sua vida, com suas inesquecíveis canções e composições, além de mergulhar nas paixões do sambista, ao falar da relação de amor pela Mangueira, escola que fundou, e por sua companheira, Dona Zica, com quem foi casado e dividiu a vida por 26 anos. Uma exclusividade é o samba-enredo ‘Mestre Cartola’, composto por Arlindo Cruz e Igor Legal, e que encerra o espetáculo.

“Falar de Cartola é falar de poesia, do amor, da mulher, com muito respeito nas composições, na harmonia. Quando escutamos suas canções somos levados para um lugar diferente”, diz Flávio. “Na peça, retratamos alguns aspectos da sua vida, como o rompimento com o pai e sua importância como artista negro. E fica evidente que uma de suas características principais era a resistência”, esclarece.

Musical retrata a vida de CartolaDivulgação

Flávio revela que o musical vai contar com a participação de um convidado em todas as sessões de quinta-feira. As Velhas Guardas das escolas de samba do Rio participam aos domingos. “Estamos em cartaz em um lugar que tem energia histórica do samba. Revitalizar culturalmente este lugar é reativar a memória. Quando falamos de samba, falamos de nós, falamos do Brasil. É um momento de resgate da nossa identidade como brasileiros. O espetáculo vem também com esta intenção”.

COM AS BÊNÇÃOS DO MESTRE

Ele conta que percebe a energia do compositor em cena: “Claro que é um trabalho de ator, de composição, não encarno ninguém. Mas tem a energia dele ali, dá para sentir”.

Flávio fica mesmo parecido com Cartola. E não é de hoje. A semelhança na composição vai além da caracterização e já lhe rendeu boas histórias. “Quando fiz o primeiro espetáculo sobre o Cartola e fui chamado para inaugurar o Centro Cultural Cartola, uma pessoa conhecida apertou minha mão e disse: ‘Oi Cartola’. Vi ali que a função do ator estava sendo alcançada: não era mais o Flávio, só existia o Cartola, o personagem, naquele momento”. O ator também se aproximou da neta do sambista, Nilcemar Nogueira, e pôde frequentar a intimidade da família. “Fui à casa do Cartola, convivo com a Nilcemar, conheci os bisnetos, me chamaram de ‘biso’. Foi um mergulho profundo, que mudou minha vida. Aliás, como todos os trabalhos que faço. O que mexe muito aqui é essa conexão com o passado, os que vieram antes de nós e abriram espaço”, reflete.

IDENTIFICAÇÃO

Flávio está em cena à frente de 17 atores, entre eles Virginia Rosa, como Dona Zica, e Antônio Pompeu, que faz seu pai. E admite que é especificamente nas cenas com Pompeu que reconhece um pouco da própria história. “Falamos da relação dele com o pai, que abandonou o filho aos 17 anos, porque tinha vergonha dele, mas depois o resgatou. Não tive uma relação com meu pai também, não o conheci. Então, quando olho para o Pompeu em cena, resgato isso, coisas que não ouvi do meu pai. Nunca ouvi dele que ele tinha orgulho de mim”, confidencia. “Cartola era negro, eu também sou. Na minha trajetória como na dele, reconheço a perseverança de não desistir. Ele nunca desistiu. Lutou pela vida como eu. Não sou diferente dele, quando penso na luta dos artistas. Olho para ele e enxergo minha família, tantas histórias... E a importância dele para a história da música, do samba”.  

Serviço

TEATRO CARLOS GOMES. Praça Tiradentes s/nº, Centro (2215-0556). Qui e sex, R$ 70. Sáb e dom, R$ 80. Duração: 2h30. Qui, sex e sáb, às 19h. Dom, às 17h. 12 anos. Até 28 de maio.


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