Luís Miranda vive as dores e as delícias de ser mulher em 'Geração Brasil'

Ator dá vida ao transgênero Dorothy na novela das sete

Por O Dia

Rio - A baianidade de Luís Miranda está presente na fala mansa, no sorriso largo, no sotaque inconfundível e na alegria que salta aos olhos de quem cruza o seu caminho. “Sou um cara festivo”, diz. Se o ator é uma festa, a Dorothy de ‘Geração Brasil’ é um evento. E daqueles do tipo arrasa-quarteirão! Na pista de dança da vida, o artista nascido em Santo Antônio de Jesus, interior da Bahia, consegue a proeza de estar absolutamente à vontade com o próprio corpo e, ao mesmo tempo, com as curvas femininas do transgênero que se tornou um dos tipos mais populares da novela das 19h.

'Comecei a olhar para mim e descobri que tenho umas coxas bem boas'%2C diz Luís MirandaMaíra Coelho / Agência O Dia

“Estou com uma rotina quase feminina. Tiro sobrancelha, pinto unha e ainda faço a barba todos os dias. O mais difícil para mim é essa manutenção dos cuidados com a beleza. E ainda tem a questão do salto alto, do espartilho, do sutiã... Homem não se acostuma com essas coisas que apertam”, brinca o ator, que demora uma hora para ficar montado.

E, para ser mulher, não basta apenas se entregar aos profissionais de caracterização da trama de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. Para estar com a aparência irrepreensível que a elegante Dorothy exige, é preciso fazer muito dever de casa.

“Nunca tinha usado creme para as mãos, mas, depois que comecei a cutilar as unhas toda semana, reparei que ficava com uns cantos cinzentos. Aí, vi que é só passar um creminho para a pele ficar sedosa, um luxo. Quando se está fazendo uma mulher, a gente aprende a ter mais delicadeza com o corpo, se cuida mais”, constata. Não resta dúvida: Dorothy fez com que o seu intérprete ficasse mais vaidoso. “Estou me curtindo um pouco mais. Comecei a olhar mais para mim e descobri tenho umas coxas bem boas”, diverte-se.

'Sou um homem que chora%2C que se emociona%2C que sofre. Tenho uma sensibilidade exacerbada'%2C revela o atorMaíra Coelho / Agência O Dia

A disciplina quase militar para se transformar fisicamente em uma mulher contrasta com a forma natural como a alma feminina passou a fazer parte do dia a dia de Luís. “A delicadeza e a generosidade da mulher me encantam, assim como também o lado emocional intenso. Mas, se a gente pensar bem, o ser humano é praticamente igual. A única coisa que separa a gente é o sexo. Os desejos, os anseios, as expectativas amorosas e profissionais são iguais para todo mundo”, acredita.

A tese do ator é fundamentada de tal maneira que até o chamado ‘papo mulherzinha’, no seu ponto de vista, também está presente no universo masculino. “A conversa de duas mulheres não é diferente da de dois homens. Os assuntos, independentemente do sexo, giram em torno de problemas amorosos, financeiros ou profissionais. O que muda é a maneira de falar. Enquanto a menina encontra outra e diz: ‘Oi, minha linda, tudo bem?’, o homem encontra outro, dá um tapa no ombro e fala: ‘Qual é, rapá, tudo certo?’. O grande diferencial é o tom. A mulher é delicada e o homem é rude, simples assim”, explica.
Um jeito rude de ser pode fazer parte do estereótipo do macho, mas esse perfil não se encaixa na personalidade desse baiano de 44 anos.

“Sou um homem que chora, que se emociona, que sofre. Tenho uma sensibilidade exacerbada. Ainda mais quando se faz um trabalho como esse, que poderia mexer com preconceito sexual, racial”, analisa. Mas, ao contrário do que se pode supor, Dorothy não é vítima de discriminação em nenhum dos dois aspectos. “Não senti preconceito em relação à Dorothy. Ela só recebe carinhos e amores”, frisa.

A imersão no mundo feminino, até então mais explorada por Luís no teatro, como na comédia ‘Terça Insana’, também fez com que ele chegasse à curiosa conclusão de que homem que se veste de mulher conquista uma legião de admiradoras. “Tem isso de fazer mais sucesso com as mulheres, sim! Acho que é porque a beleza da gente fica mais evidente como mulher. Tenho sido elogiado, inclusive, pelo corpo. Elas falam: ‘Não entendo como você pode se transformar em uma mocinha tão bonita’ ou ‘E não é que você fica bonito de mulher?’. Minha mãe (Luzia) também diz que eu estou um gato”, conta. Mas será que não rola cantada? “Só de brincadeira, sei lá... Eu não levo a sério”, despista, dando indícios de que há uma timidez por trás do jeito expansivo.

E se rolasse cantada, não haveria mal algum nisso. Luís vive um momento livre e desimpedido. “Estou solteiro, até mesmo por causa desse meu aspecto andarilho. Quando não estou na TV, estou em um set de filmagem ou no teatro. Em uma relação, as pessoas cobram muito e eu não estou aberto a cobranças. Eu tinha uma meta como ser humano, que era dar dignidade para a minha mãe e para mim. Consegui! O trabalho é minha prioridade”, afirma. Contraditoriamente ou não, ter um filho é objetivo a ser alcançado até os 50 anos. “Penso em ser pai. Se eu não tiver um filho biológico, vou adotar. É lindo ter um filho com a sua cara, mas também é bacana ter um filho do coração”, revela.

E no coração desse baiano cabe muita gente. Além do amor incondicional pela mãe, o ator gosta de viver cercado de amigos. Não por acaso, está organizando uma espécie de excursão para a seu cantinho, que fica em Barra do Jacuípe, a 50 km de Salvador. “Estou combinando com uma galera de ‘Geração Brasil’ para passar uns dias lá em casa quando a novela acabar”, adianta.

Entenda-se por casa um sítio, onde Luís cuida de uma horta e ainda planta pitanga, manga, jabuticaba, pinha (conhecida também como fruta-do-conde), banana... “Estar em contato com a natureza me dá vida, me reenergiza. Brilhar incomoda, causa inveja, então, na Bahia, no meu sitiozinho, me sinto protegido e espiritualizado. Na minha vizinhança, eu vivo quase anônimo, o que é um luxo para um artista.”

Apesar de curtir o anonimato, o ator não é avesso à fama: “O que me incomoda é ficar escravizado pela aparência, ter a obrigação de estar sempre com uma roupa bacana. Isso é chato. Gosto é de andar fuleiro, molambento.”

A opção pela simplicidade não impede que Luís brinde os seus 30 anos de carreira, completados agora em 2014, com uma bela taça de champanhe, bem ao estilo Dorothy de ser. “Eu sempre tenho uma garrafa de champanhe em casa para abrir nos momentos deliciosos da vida. Mas tenho que confessar: gosto mesmo é de uma cerveja gelada.”

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