Bernardinho: 'Meu medo é deixar um país pior para os nossos filhos'

Em entrevista exclusiva ao DIA, técnico da seleção brasileira fala sobre escândalo na CBV, política, olimpíadas e muito mais

Por O Dia

Rio - A falta de fé e de crença em uma religião de certa forma incomoda Bernardinho. Principalmente depois do susto com a retirada de um tumor maligno no rim direito, ano passado, após o Mundial da Polônia. Mas a constatação de que não é imortal, é claro, mexeu com o pragmático técnico da Seleção masculina de vôlei e da equipe feminina do Rexona-Ades. O agitado Bernardinho, 55 anos, está disposto a mudar sua rotina. Agora, conta que vai desacelerar e dar mais tempo à família. Pai de Bruno, Júlia e Vitória, ele tem medo do mundo que sua geração vai deixar para seus filhos.

Após um ano complicado para o vôlei brasileiro, com denúncias de irregularidades em contratos da CBV, o que esperar de 2015?

Na Seleção falta um pouco mais, mas não tivemos um ano ruim do ponto de vista de resultados. Foi um ano conturbado em razão da denúncia e de tudo o que veio à tona. O que foi divulgado preocupa porque nem a área mais próxima conseguimos blindar de uma sistemática de práticas não muito adequadas de gestão.

O vôlei ficou manchado?

A impressão é de que fica todo mundo querendo jogar: ‘é tudo farinha do mesmo saco’. Isso é ruim. As pessoas são diferentes. Para o Brasil mudar e para o vôlei, que é uma pequena célula do país mudar, as pessoas têm que assumir suas responsabilidades e tomar as medidas adequadas. Tudo que aconteceu provocou grande questionamento, que é importante para provocar mudanças e buscar crescimento. A participação de atletas e personalidades do vôlei mostra que eles têm amor e apego a tudo que foi construído. É a mensagem positiva que fica.

O Banco do Brasil divulgou que um aditivo ao contrato com a CBV está sendo feito para a retomada do patrocínio. Como está acompanhando a situação?

Essa é a notícia boa. Claro que vão ajustar algumas questões de governança desse contrato. As coisas estão se alinhando da forma correta, construindo a quatro mãos esse novo caminho. Não tinha sentido interromper uma história de 23 anos já que medidas foram tomadas e mudanças aconteceram.

Você temeu por um boicote dos jogadores à Seleção?

No momento de raiva e frustração, as coisas afloram. Depois você vê o que é melhor. Não vejo que devemos chegar a algo desse tipo porque hoje as perspectivas são diferentes. É um time ajustando as coisas internas. Toda crise gera uma grande oportunidade.

Bernardinho abre o jogo e não deixa de falar sobre escândalo da CBV e nomeação do novo Ministro do Esporte Joao Laet

Você se reuniu no COB para discutir as dificuldades de ser anfitrião nos Jogos de 2016. Haverá uma cartilha de conduta?

A cartilha pode suscitar conotações de que os caras têm que seguir porque senão vai ter reprovação na caderneta. Não é isso. A gente quer um debate sobre a pressão de jogar em casa, da possibilidade da perda de concentração, da quantidade de solicitações. Blindar não significa travar e não permitir que o trabalho aconteça, mas criar condições para que flua bem. Haverá outra reunião para debater nossas preocupações para 2016, tentando aprender com lições do passado. Perdemos competições no Brasil. Por quê? Precisamos trabalhar mais a questão emocional? A Seleção de futebol perdeu. É um mundo diferente, mas pode haver alguns elementos que você possa trazer.

O uso das redes sociais preocupa?

Todo excesso preocupa. Aparecem os falcões nesse momento. Vai aparecer uma série de oportunidades para vender coisas. A gente tem que estar focado na missão que é a busca da medalha. Os técnicos estão debatendo, mas será levado aos atletas. Não será imposto. O atleta pode dizer: ‘Quero falar com a minha mãe antes de entrar em campo’. Ele não pode falar com a mãe dele? Mas que entendam a importância do momento e as armadilhas de jogar em casa.

Depois de alguns vices, ganhar uma competição neste ano será importante na preparação para 2016?

Vamos tentar. Falta um degrau. Que bom que há incômodo (dos jogadores). Se estivessem acomodados, não seria bom. Queríamos ter vencido o quarto Mundial seguido.

Qual é o plano para o Pan de Toronto, em julho?

Não há como ir como um time completo em função da Liga Mundial. O time misto foi importante (no Pan de 2011). O Wallace foi um jogador que a experiência de 2011 lhe deu a condição de se integrar à Seleção principal em 2012.

Qual o seu plano depois da Olimpíada de 2016?

Não tenho nenhum. O que vou fazer depois de 2016 para mim é uma grande dúvida.O meu objetivo é até 2016. Pós é uma coisa a ver. Está em aberto o que pode acontecer.

Você leva uma vida muito agitada. Pretende desacelerar um pouco?

Em função até do problema que tive de saúde, certamente isso é uma necessidade. Não dá mais para adiar certas escolhas e decisões no sentido de desacelerar e ter mais tempo com a família. A gente fala, fala e acaba protelando. A vida é curta, é efêmera. Tive um susto agora que me mostrou claramente que não somos imortais nem super-homens

Bernardinho quer um mundo melhor para os seus filhosJoao Laet

Isso mudou sua fé?

Meu pai diz que nosso Deus é a Humanidade. Infelizmente não creio em algo. Eu digo infelizmente porque isso causa uma ansiedade terrível. Vejo ele um pouco ansioso na idade em que está. Mas é fazer as coisas do bem aqui.

Não acredita em nada?

Não fui criado num ambiente onde a gente teve isso. Mas pode ter uma força maior.

O problema de saúde não mexeu com você?

Continuo achando que enquanto estiver aqui tenho que fazer o bem para as pessoas. É a minha responsabilidade. Meu avô era positivista e dizia que se não fosse positivista seria budista em função das máximas do budismo em relação a essa questão de solidariedade permanente, de se doar. É o que tenho que fazer.

O seu pai, Condorcet, tem 84 anos. Você espera viver tanto quanto ele?

Não sei. Eu me cuido direitinho assim. Mas é difícil dizer.

Sua mulher, Fernanda Venturini, é religiosa. Como lidou com tudo isso?

Ela tem muita religiosidade, mas é pragmática em dizer: o que tem que ser feito tem que ser feito. Ela reagiu positivamente e achava que seria momentâneo. Por enquanto, tem se mostrado assim. Momentaneamente estou curado. Vamos ver se isso se mantém.

Você teve convite para concorrer nas eleições. Não pensa mais em política?

Política não é a minha praia, mas se eu for chamado a dar uma contribuição numa área em que realmente tenha condições de fazer, no futuro, quem sabe? Vou continuar trabalhando pelo esporte e ajudando no que eu puder ajudar, independentemente de ser outro presidente, outro ministro. Não vou remar contra.

O que achou da nomeação de George Hilton como ministro do Esporte?

Não o conheço. Não posso julgar as pessoas. O PC do B tinha o domínio do Ministério dos Esportes, que passou para outro partido, e o PC do B foi para Ciência e Tecnologia. O esporte foi tratado como uma certa moeda de troca.

Que mundo seria ideal para deixar aos filhos?

Meu medo é que a minha geração vá embora deixando para os nossos filhos um país pior do que recebemos dos nossos pais. É a grande tristeza que tenho. Lutei, trabalhei. Quando encontro com jovens, me encho de esperança. Mas as transgressões continuam aí. Se me perguntam se sou otimista, sou realista. O realismo me leva a uma pequena falta de esperança. Mas não quer dizer que vamos deixar de trabalhar e fazer a nossa parte.

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