Goleada que não deixou lições

Um ano após vexame histórico na Copa do Mundo diante da Alemanha, nada mudou no futebol brasileiro

Por O Dia

Rio - Há exatos 365 dias, o futebol brasileiro vivia o seu pior pesadelo. E ainda não acordou. Num Mineirão lotado, semifinal de Copa do Mundo, os jogadores da Seleção, sem Neymar, lesionado, exibiam a camisa do craque e cantavam o Hino Nacional a plenos pulmões. Ninguém entre os milhares de presentes, nem entre os bilhões de telespectadores, poderia imaginar que estava prestes a testemunhar a maior derrota na história pentacampeã mundial.

Do primeiro ao quinto gol, só 29 minutos. Incrédulos, os próprios alemães se assustavam. Os brasileiros vagavam pelo campo, como vítimas de uma catástrofe. Sem comando, sem destino, sem futuro.

Desde então, transcorreram mais de 525 mil minutos, quase 22 mil horas. Mas, para o futebol brasileiro, o inexorável relógio do tempo não andou. Como sempre, trocou-se o treinador, em inacreditável volta ao passado, com Dunga no lugar de Felipão. “Perdemos um ano. Dunga não significa mudança de conceito teórico”, lamenta Tostão, tricampeão mundial em 1970 e hoje colunista esportivo.

Um ano depois da goleada, nada mudou no futebol brasileiroReuters

“Precisamos mudar conceitos, treinadores, estrutura, forma de jogar, mentalidade de dirigentes e, principalmente, diminuir as promiscuidades comerciais”, acrescenta.

Na balança das negociações, nossos garotos seguem no topo, indo, quase sempre, para centros de pouca expressão — centavos para cobrir o rombo no cheque especial dos clubes. Campeão mundial de juniores em 1983 dirigindo a Seleção, Jair Pereira adverte: “Queimam etapas e muitos se perdem pelo caminho.” E ressalta: “Antes, se jogava na Seleção para, depois, ir ao exterior. Agora, primeiro se joga no exterior para, depois, ir à Seleção.” Jair Pereira pede mudanças na base: “Aos 13 anos, o garoto já tem que saber tática. Frustram a criatividade.”

Desastrosas gestões atolaram os clubes na lama financeira. Há o aceno de medida provisória para refinanciar dívidas. Mas cartolas resistem a contrapartidas e a bancada da bola faz cera. O Campeonato Brasileiro perde força. Sem dinheiro, recorremos a sul-americanos, a maioria ciganos da bola. Ou a veteranos que veem a chance de esticar a carreira.
Não temos protagonistas nos gigantes europeus. Até Neymar, jogador genial, não é o cara do Barcelona — e nem poderia num time com Messi.

Fora das quatro linhas, violência das facções organizadas. Somos líderes mundiais em mortes, como atesta o sociólogo Maurício Murad: “Só neste ano, são 17. A impunidade impera, com pequenos grupos, agressivos e violentos, ligados ao crime organizado.”

Torcedor não consegue ver evolução dentro e fora do campoAndré Mourão

No comando do futebol, um desastre. Dirigentes arcaicos se perpetuam, com manobras espúrias. E assim seguimos. Divorciados da Seleção, sem identificação com jogadores convocados, muitas vezes sem nem mesmo conhecê-los. Goleada da Alemanha, que teve a coragem de refundar um futebol também multicampeão!

GOL DA ALEMANHA! 11’, 1ºT, Müller.

Garotos brasileiros saem cedo demais para a Europa, muitas vezes para clubes de segundo escalão, o que interrompe a formação. E passam a receber altos salários, antes que se firmem no cenário nacional.

GOL DA ALEMANHA! 23’, 1ºT, Klose.

O futebol brasileiro não tem protagonistas nos principais times do mundo, na melhor das hipóteses bons coadjuvantes. Até mesmo Neymar é encoberto pela sombra de Messi.

GOL DA ALEMANHA! 24’, 1ºT, Kroos.

Mesmo contando com milhões de torcedores, os principais clubes do país enfrentam gravíssimos problemas financeiros, afundados por péssimas gestões.

GOL DA ALEMANHA! 26’, 1ºT, Kroos.

O Campeonato Brasileiro perde força técnica ano a ano. Sem dinheiro, os clubes recorrem a atletas sul-americanos, muitos de segunda linha.

GOL DA ALEMANHA! 29’, 1ºT, Khedira.

Além do interminável troca-troca de treinadores no país, nossos profissionais perdem expressão no cenário mundial. Não há um só técnico brasileiro trabalhando em grande centro.

GOL DA ALEMANHA! 24’,2ºT, Schürrle.

O Brasil lidera o ranking mundial de mortes no futebol. A cada novo caso de barbárie, as autoridades prometem providências, mas, na prática, pouco fazem.

GOL DA ALEMANHA! 34’, 2ºT, Schürrle.

Sistema de eleições nas federações facilita a perpetuação de cartolas no poder de norte a sul do país. Na CBF, só após escândalo de corrupção, mandato do presidente foi limitado.

GOL DO BRASIL! 45’, 2ºT, Oscar.

Neymar é o único representante do nosso futebol digno de gerações passadas. Mesmo não sendo o protagonista do Barcelona, foi destaque e um dos artilheiros na recente conquista da Liga dos Campeões da Europa. 

Dunga retornou para a Seleção, que já deu novo vexameEfe

SEM TÉCNICO, DEPENDÊNCIA DE NEYMAR

Craque solitário do atual futebol brasileiro, Neymar mostrou que, apesar de ainda jovem, tem bola para vestir a camisa de um dos maiores clubes do mundo. Em sua segunda temporada, formou trio ofensivo infernal com Messi e Suárez e ajudou a levantar a taça da Liga dos Campeões, sendo um dos artilheiros da competição.

Para Mauro Cezar Pereira, comentarista da ‘ESPN Brasil’, Neymar é espetacular, mas não pode jogar sozinho e nem arcar com toda a responsabilidade. “Dependemos dele porque não temos um time, e não temos um time porque não temos um treinador”, diz. Para ele, a geração não é brilhante, mas está muito longe de ser ruim: “O que falta é técnico.”

Mauro Cezar é favorável à contratação de um estrangeiro: “Depois dos 7 a 1, precisávamos de algo revolucionário, e o Dunga está longe disso. Perdemos a chance de trazer o Pep Guardiola, de buscar outras ideias. Temos que recuperar a nossa filosofia, gostar da bola.”

Fora das quatro linhas poucas coisas foram modificadasReprodução Facebook

DENTRO E FORA DE CAMPO, NADA...

Tostão e Mauro Cezar Pereira concordam que o futebol brasileiro nada aprendeu com o vexame na Copa do Mundo, seja dentro ou fora de campo.

“Os técnicos vão à TV e falam que estão mais atualizados. As pessoas que comandam o futebol não veem a realidade”, critica Tostão.

“O Brasil se apoia em conceitos primitivos, com técnicos obsoletos. Escalamos quatro zagueiros contra a Venezuela em nome da vitória. Isso não é evolução”, reforça Mauro Cezar.

Colaborou Victor Abreu

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