Eduard Soghomonyan reforça o Brasil na luta greco-romana nos Jogos do Rio

Lutador foi sobrevivente de conflito na Armênia

Por O Dia

Rio - O entendimento de guerra do armênio Eduard Soghomonyan vai muito além de uma hashtag em uma rede social — algo muito comum nos dias de hoje entre atletas de esportes de combate. Sobrevivente do conflito de Nagorno-Karabakh, entre seu país e o Azerbaijão, nos anos 1990, o atleta da luta greco-romana teve o caráter moldado pelas dificuldades e confessa que custou a entender o termo, muito utilizado pelos brasileiros. Em fase final de naturalização para defender o Brasil nos Jogos do Rio, Eduard deixou a família para trás e empresta sotaque e força para que o País possa sonhar com uma medalha inédita na modalidade.

“Quando vejo amigos escrevendo que agora é guerra, eu repondo: ‘Deus me livre, vocês não sabem o que é isso (risos). O Brasil tem problemas, mas não sabe o que é realmente uma guerra. Ter seus amigos, familiares atacados ou tirados de você é muito ruim. Graças a Deus não tem isso aqui”, afirma.

Terra natal de Eduard, a Armênia, localizada a sudoeste da Rússia, tem histórico de conflitos André Mourão / Agência O Dia

Histórias da guerra, ele tem de sobra. No entanto, uma em particular não lhe sai da cabeça: “Tinha quatro anos quando a guerra acabou. Lembro que meu tio teve sorte quando um sniper (atirador de elite) acertou nele, mas a bala só pegou o boné. Mas o mais triste é andar pelas ruas e ver pessoas sem perna, sem braço, com rosto ferido. É um sofrimento grande”.

Mas as dificuldades agora são outras. Em alguns minutos de conversa com Eduard, 26 anos, percebe-se que o idioma ainda é um problema, apesar de ele estar aqui há quatro anos. Adotado por uma família paulista, ele se diz autêntico brasileiro e refuta quem o chama de gringo.

“Cheguei ao país para passear e me convidaram para lutar no Campeonato Paulista. Lutei e ganhei. As pessoas viram minha força, vontade de ganhar e perguntaram se eu queria ficar, já que o Brasil não tem peso-pesado na greco-romana (até 130kg). Eu tinha o sonho olímpico e resolvi ir atrás dele. Então, comecei a treinar, falar português e virei brasileiro”, brinca. “Meus amigos são brasileiros, minha seleção é a brasileira e ninguém me vê como gringo. Sou brasileiro desde o início. Desde sempre”, garante.

Eduard se concentra no treino no CT da Confederação Brasileira de Wrestiling (CBW)%2C na TijucaAndré Mourão

Sonhando bem alto

A saudade de casa é o combustível que move o armênio. Sendo assim, ele não se contenta com pouco quando o assunto é a Olimpíada. Eduard conquistou prata e bronze recentemente em dois torneios internacionais preparatórios, e diz que não está aqui só para competir.

“Meu objetivo é o ouro, não sou sonhador. Sou realista. Os caras que são mais famosos já estão no topo, já lutaram, já ganharam medalha e eu preciso olhar para o meu futuro. Buscarei o ouro, no mínimo uma medalha. Mas primeiro tenho que me classificar para os Jogos”, diz Eduard, que pode ter sua situação regularizada nesta semana: “Falta uma assinatura para eu ganhar passaporte brasileiro. Vai dar tudo certo”.

O ‘monstro’ demolidor

A maior prova de que Eduard Soghomonyan foi bem recebido por aqui é que o sisudo lutador não escapou de receber apelido ‘carinhoso’ por parte dos brasileiros. Mas até que o gringo aprovou a alcunha.

“Na primeira luta que eu ganhei, meus amigos brasileiros me chamaram de monstro”, revela, sorrindo: “Eu atropelei nos combates e todos foram à loucura comigo. Ali eu senti que todos me queriam bem”.

Se tem algo que mexe com o armênio é o jeito de ser do brasileiro. Mas nem sempre foi assim: “Quando cheguei aqui, via essa alegria, as brincadeiras e achava: ‘nossa, esse não é meu mundo. É ruim’. Mas, depois de um tempo, percebi que eu que era o errado. Não tinha motivos para ser fechado e duro. É preciso curtir a vida”.

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