Bovespa fecha em baixa após deterioração política

Bolsa encerrou em baixa de 1,63%, a 50.468 pontos. Dólar fecha em alta após bater em R$3 durante a sessão, por preocupação com fiscal

Por O Dia

O principal índice da Bovespa fechou a quarta-feira no vermelho, em meio à deterioração do ambiente político, com investidores temerosos sobre potenciais dificuldades para o amplamente almejado ajuste nas contas públicas do país.

A queda nos pregões em Wall Street reforçou a pressão vendedora na bolsa paulista, em sessão também influenciada pela valorização do dólar para ao redor de R$3.

O Ibovespa encerrou em baixa de 1,63%, a 50.468 pontos. O volume financeiro totalizou R$ 6,5 bilhões.

Em Wall Street, o índice S&P 500 recuava 0,47%, com ações do setor de saúde entre os poucos ativos no azul, conforme investidores seguiam ajustando posições após rali recente que colocou as bolsas em máximas recordes.

No Brasil, o governo federal precisou enviar projeto de lei que pode gerar receita ao governo de cerca de R$ 14,6 bilhões com urgência constitucional ao Congresso após o presidente do Senado rejeitar a respectiva medida provisória.

Renan Calheiros (PMDB-AL) considerou inconstitucional a MP 669, que elevou as alíquotas de Contribuição Previdenciária das empresas sobre receita bruta, reduzindo, na prática, a desoneração da folha de pagamentos.

A presidente Dilma Rousseff reuniu-se nesta quarta-feira com os líderes de partidos aliados da Câmara e do Senado e fez um apelo pela aprovação do projeto de lei.

"A dificuldade em aprovar as medidas fiscais dificulta a recuperação da credibilidade brasileira", afirmou o gestor Joaquim Kokudai, sócio na JPP Capital Gestão de Recursos.

Ele lembrou que há um custo político para medidas como esses ajustes fiscais e o governo não parece gozar de apoio para isso, o que ficou nítido nos últimos acontecimentos.

O noticiário corporativo também esteve no radar, como a chance de a Petrobras buscar financiamento de até US$ 19 bilhões.

As preferenciais da estatal caíram 4,06%, também afetadas pela valorização do dólar, que pressiona o nível de endividamento da empresa, enquanto o petróleo não mostrou direção comum no exterior.

A alta da moeda norte-americana, por sua vez, ajudou as siderúrgicas, com Gerdau à frente, em alta de 4,51%, também em meio à recepção positiva do seu balanço do quarto trimestre.

O comportamento do câmbio favoreceu ainda as empresas de papel e celulose Fibria e Suzano, com a última ainda beneficiada por informações sobre aumento de preço e expectativa do balanço após fechamento do pregão.

Bancos pesaram negativamente no Ibovespa nesta sessão, com Bradesco caindo 2,07% e Itaú Unibanco recuando 0,87%, diante de preocupação sobre a exposição de tais instituições ao escândalo envolvendo a Petrobras.

Banco do Brasil perdeu ainda mais, fechando em baixa de 5,04%, Na véspera, a Moody's afirmou que os riscos à operação Lava Jato são maiores para bancos públicos. O Goldman Sachs também reduziu o preço-alvo da instituição de R$ 25,80 para R$ 25,40.

Vale foi mais um componente negativo, com as preferenciais recuando 2,32%, após os preços do minério de ferro recuarem nesta quarta-feira para perto do menor nível desde 2009.

Agentes financeiros ainda aguardam nesta quarta-feira decisão de juros do Banco Central, com 43 de 48 economistas consultados pela Reuters prevendo alta da taxa Selic para 12,75%.

Dólar fecha em alta após bater em R$3 durante a sessão, por preocupação com fiscal

O dólar subiu nesta quarta-feira e chegou a bater R$3 reais pela primeira vez em mais de dez anos, embalado pela decisão do presidente do Senado de rejeitar Medida Provisória que trata de desonerações tributárias, dificultando ainda mais o ajuste das contas públicas brasileiras.

A moeda norte-americana avançou 1,80%, a R$ 2,9807 na venda, maior patamar de fechamento desde 19 de agosto de 2004, quando atingiu 2,987. Na máxima da sessão, o dólar atingiu R$ 3,0010, maior nível intradia desde 18 de agosto de 2004. Segundo dados da BM&F, o giro financeiro ficou em torno de US$ 2,3 bilhão.

A escalada desta sessão levou o JPMorgan a encerrar sua recomendação de apostar na queda do euro em relação ao real. "Reconhecemos os riscos de uma recomendação tática em meio a acentuado risco no caso de uma moeda que, no longo prazo, está supervalorizada", escreveram os analistas Diego Pereira e Holly Huffman em nota a clientes.

O gerente de câmbio da corretora BGC Liquidez, Francisco Carvalho, resumiu: "ninguém sabe onde vai parar, é uma barbárie".

Na noite passada, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) surpreendeu o Executivo ao rejeitar a medida provisória 669, argumentando que ela não cumpria preceitos constitucionais. Pouco depois, o governo enviou um projeto de lei com urgência constitucional assinado pela presidente Dilma Rousseff para substituir a MP. [nL1N0W5336]

A perspectiva de melhora da política fiscal vinha sendo uma luz no fim do túnel em meio ao cenário de contração econômica e inflação acima de 7% neste ano. À medida que se torna mais difícil para o governo cortar seus gastos, a pressão cambial também se intensifica.

O banco BNP Paribas ressaltou em relatório nesta quarta-feira que o custo de seguro contra um calote brasileiro já condiz com uma eventual perda do grau de investimento do país.

"O dólar já estava em uma tendência de alta em função dos fundamentos deteriorados. Agora, há esse 'a mais', que é o cenário político conturbado dificultando a implementação do ajuste fiscal", disse o analista da WinTrade Bruno Gonçalves, que não tem expectativas de alívio no câmbio no curto prazo.

Com isso, cresce a ansiedade do mercado sobre o futuro do programa de intervenção do Banco Central no câmbio.

O atual programa de leilões diários de swap cambial está marcado para durar até pelo menos o fim deste mês, e a sinalização de que o BC pretende rolar apenas parcialmente os contratos que vencem em 1º de abril já injetou incerteza no mercado.

"Isso tudo dá mais fôlego para o mercado testar o BC", disse o operador de câmbio da corretora Intercam Glauber Romano.

Nesta manhã, o BC deu continuidade às intervenções diárias, vendendo a oferta total de até 2 mil swaps, com volume correspondente a US$ 97,7 milhões. Foram vendidos 100 contratos para 1º de dezembro de 2015 e 1.900 para 1º de fevereiro de 2016.

O BC também vendeu a oferta total no leilão de rolagem dos swaps que vencem em 1º de abril. Até agora, foram rolados cerca de 11% do lote total, que corresponde a US$ 9,964 bilhões.

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