Pessimismo resignado

O dólar oscilou entre R$ 2,2178 e R$ 2,2256, mas encerrou no mesmo preço de sexta-feira, R$ 2,2240

Por O Dia

Dólar e juros futuros quase não saíram do lugar nesta segunda-feira. As duas maiores praças financeiras do mundo — Nova York e Londres – não funcionaram por causa de feriados. Sem os seus principais referenciais externos, os pregões domésticos não quiseram se arriscar na antecipação de alguma mudança.

E as notícias locais também não apresentaram novidades capazes de justificar uma conduta mais audaciosa. O mercado de câmbio negociou apenas US$ 460 milhões, um giro bem distante da média diária de US$ 1,6 bilhão registrada no mês. O dólar oscilou entre R$ 2,2178 e R$ 2,2256, mas encerrou no mesmo preço de sexta-feira, R$ 2,2240. O pregão de juros futuros operou travado à espera da decisão e da sinalização que o Copom fará amanhã. A taxa para a virada do ano fechou estável em 10,90%.

As alterações feitas nas projeções do mercado financeiro para as principais variáveis econômicas não foram significativas a ponto de exigir uma reconfiguração das carteiras. O boletim Focus divulgado ontem pelo Banco Central sustentou o cerne das visões do mercado sobre o futuro, ou seja, pessimismo sobre inflação e crescimento econômico. O prognóstico de IPCA para o acumulado de 2014 subiu de 6,43% para 6,47%, se reaproximando do limite máximo de 6,5% já antevisto pelas cem instituições participantes da pesquisa há quatro semanas. Para os próximos 12 meses, o mercado elevou sua estimativa de inflação de 5,88% para 5,96%. E, para 2015, a projeção está congelada em 6% há seis semanas.

Nessas três previsões (para este ano, para 2015 e para os próximos 12 meses), está escancarada a certeza dos analistas de que, se o BC persegue de fato a meta central de 4,5% para o IPCA, não irá alcançá-la. Na verdade, para os economistas ele não tem autorização do governo para buscá-la. Não é prioridade do governo baixar a inflação até a meta. No foco primordial das ações estão a manutenção do pleno emprego, o crescimento da renda e os avanços sociais. O governo estará muito satisfeito se o Copom mantiver o IPCA abaixo do teto de 6,5%. E o Copom também. Não tem procedência e legitimidade a suspeita dos analistas de que o BC tem uma meta paralela de inflação, não confessada a ninguém, que não é nem os 4,5% centrais nem os 6,5% no teto. O mercado já percebeu que todos os artigos e estudos escritos nos últimos meses, com variados graus de indignação, conclamando o BC a “cumprir” o seu mandato desinflacionário são uma completa perda de tempo. E assume agora um pessimismo resignado.

O BC vai parar de subir o juro amanhã porque os alvos preferenciais do governo estão sob ameaça por causa da perda de vigor da economia. A projeção de alta do PIB para este ano das cem instituições vem oscilando entre 1,62% e 1,65%, mas elas vinham mantendo a visão de uma expansão de 2% para 2015. Não mais. Na pesquisa divulgada ontem a expectativa cedeu para 1,96%. Trata-se de uma reação relacionada mais à última pesquisa Ibope, que apontou a recuperação da candidatura Dilma Rousseff, do que de imperativos técnicos. Para o mercado, o cenário de um segundo mandato significa persistência de um PIB apático, inflação igual à atual e freio na alta de juros. Tanto é que a Selic prevista para o fim de 2015 recuou de 12,25% para 12%.

Sem o respaldo de Nova York e Londres, as positivas notícias internacionais perderam um pouco de sua força. E, por isso, sua influência sobre os pregões locais foi limitada. Duas vieram da Europa e a outra da China. A vitória de Petro Poroshenko na Ucrânia, um empresário pró-União Europeia, não será contestada pela Rússia. Vladimir Putin promete não interferir nos rumos ucranianos. E o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, deu um passo definitivo para a adoção, na reunião de política monetária marcada para a semana que vem, de um afrouxamento quantitativo nos moldes americanos. Ele disse estar vendo riscos de deflação. “Inflação em patamares muito baixos incentiva o adiamento do consumo e investimento por parte das empresas e famílias. Diversas medidas estão sendo avaliadas, entre elas cortes nas taxas de juros, novos empréstimos bancários e amplas compras de ativo”, antecipou.

A rigor, já deveria ter tomado tais medidas. O crescimento do nacionalista e do euroceticismo nas eleições parlamentares mostra que a população da União Europeia não aguenta mais a política econômica austera que está sendo praticada na região há cinco anos. A alternativa vislumbrada por ela — os partidos radicais à direita e à esquerda — pode ser a mais desastrosa. O espectro que ronda a Europa hoje é o da fragmentação e o da caça aos imigrantes.

Na China, para dar peso à boa nova, foi o próprio primeiro-ministro Li Keqiang quem sinalizou a intenção de desapertar as rédeas monetárias ao informar o alinhamento de políticas destinadas a reestimular a economia. Ele frisou que a economia, após a queda recente, já entrou em um processo de estabilização e conclamou os bancos a auxiliarem empresas que enfrentam carências de capital.

Domesticamente, o indicador relevante do dia foi a arrecadação federal de US$ 105,88 bilhões obtida em abril, recorde da série histórica iniciada em 1985, superando as expectativas do mercado. Nos quatro primeiros meses do ano, a arrecadação de R$ 399,3 bilhões também foi recorde histórico. Embora o resultado inclua, além de outras receitas não recorrentes, as advindas de renegociações de tributos em atraso e pagamentos de dividendos, “relativiza”, no entender do economista-chefe do Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, a expectativa do mercado de que será difícil ao setor público obter este ano um superávit primário equivalente a 1,9% do PIB. O mercado futuro de juros da BM&F preferiu deixar a questão em suspenso pois será dirimida na quinta-feira, quando da divulgação do resultado primário do governo central.

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