Captações atenuam contágio

O conflito no Iraque desencadeou ontem movimento global de proteção de carteiras

Por O Dia

Sem disporem ainda de elementos suficientes para dimensionar completamente os efeitos da tensão no Oriente Médio sobre o preço do petróleo e a economia mundial, investidores trataram de evitar ativos de risco e buscaram refúgio em títulos dos EUA. E o dólar valorizou-se globalmente. Frente ao real, subiu 0,34%, cotado a R$ 2,2377. A alta só não foi maior graças à onda de captações externas surfada por empresas brasileiras. Os juros futuros remaram junto e fecharam em alta, apesar de um índice importante mostrar deflação mais acentuada do que o previsto, recomendando a continuidade do ciclo de queda das taxas. O DI futuro para janeiro de 2017 avançou de 11,42% para 11,51%.

O dólar não conseguiu sustentar frente ao real a mesma intensidade da alta registrada em relação a outras moedas emergentes. Aqui há uma sobreoferta de moeda procedente das captações. A ampliação da liquidez promovida pelo Banco Central Europeu (BCE) abriu um janelão de oportunidades às emissões e as empresas brasileiras dele se aproveitam antes que fique menos escancarado por causa do início das férias no Hemisfério Norte. Do dia 9 até ontem, após três semanas sem registro algum de captações, foram feitas oito, no valor total de US$ 6,4 bilhões.

A pesquisa eleitoral divulgada este fim de semana pelo Sensus teve efeito apenas marginal sobre o mercado de câmbio. As tendências gerais foram mantidas, sem alterar o resultado final: a vitória de Dilma Rousseff em segundo turno. A intenção de voto na presidente recuou de 34% para 32,2%, enquanto a preferência por Aécio Neves avançou de 19,9% para 21,5%. No segundo turno, Dilma, com 37,8% dos votos, ganharia de Aécio, que teria 32,7%. Nova pesquisa Ibope deve ser divulgada ainda esta semana.

As projeções do boletim Focus divulgado ontem não conversaram entre si. Como nada em economia é estanque, a alteração de um prognóstico deveria implicar a revisão dos outros. A principal contradição se manifesta sobretudo em relação às visões dissonantes sobre taxa de juros e PIB. As cem instituições pesquisadas pelo Banco Central persistiram diminuindo suas apostas de crescimento da economia este ano.

Na semana passada, a expectativa de alta do PIB cedeu de 1,44% para 1,24%, quando estava no mês passado em 1,69%. Trata-se de uma correção coerente com a queda de 0,4% sofrida pelas vendas varejistas e a baixa de 0,3% na produção industrial, ambas relativas a abril, e também com a retração econômica de 2,3% (abril de 2014 contra abril d 2013) detectada pelo IBC-Br. Mas os economistas não acreditam que a apatia econômica irá retirar gás da inflação.

O Focus projeta IPCA de 6,46% no acumulado do ano, ante 6,47% na semana anterior. Para 2015, o prognóstico até subiu mais um pouco, de 6,03% para 6,08%. Se a inflação irá se manter em patamar alto, não restará outra alternativa ao BC a não ser elevar a taxa Selic. Esse raciocínio autorizou a manutenção da expectativa de que, após encerrar 2014 com um juro básico de 11%, o BC irá aumentar a taxa para 12% em 2015.

Até porque as instituições preveem para o ano que vem um PIB um pouco mais alentado, embora a previsão tenha recuado de 1,80% para 1,73%. Ou seja, o quadro que o Focus desenha é o da estagflação. E de fiasco da política monetária. Esta consegue ser bem-sucedida em produzir o efeito colateral (a queda da atividade econômica) de um choque de juros sem lograr êxito em atingir o alvo principal (a inflação).

Qualquer quimioterapia que debilitasse o paciente sem reduzir o tumor teria de ser trocada, pois não é o segundo que o está matando, é a primeira. Mas o que o mercado recomenda é ampliação da dosagem. Não há hoje nada que indique a necessidade de elevação da Selic em 2015. As projeções de taxa de câmbio para 2014 (R$ 2,40) e 2015 (R$ 2,50) estão estabilizadas e sinalizam para o dólar um avanço abaixo da inflação, ou seja, o mercado acredita na valorização do câmbio real, e isso é desinflacionário. Diante do mesmo cenário, qualquer BC do mundo estaria arquitetando um programa de afrouxamento monetário.

Do Focus, o pregão de juros futuros da BM&F não recebeu estímulo algum de alta. Mas os DIs subiram, após vários pregões em queda, por um fator externo (a ampliação do risco global por causa do Iraque) e outro doméstico. Este foi o leilão primário de 1 milhão de NTN-B realizado pelo Tesouro. Para valorizar as suas propostas de compra de um papel que, no secundário, já vem sendo negociado abaixo de 6% ao ano, os investidores invocaram o argumento de que as taxas estavam em elevação no DI futuro. Acontece que os DIs subiram artificialmente justamente para dar aval moral e técnico às propostas mais salgadas no leilão de NTN-B. Trata-se de um jogo manjado de retroalimentação no vazio. O Tesouro não caiu nessa e vendeu apenas 527,8 mil títulos.

A premência de justificar pedidos mais altos para a compra de NTN-B fez o pregão passar por cima de um dado concreto cujo impacto teria sido, em condições normais, de baixa sobre as taxas. O IGP-10 acusou deflação de 0,67% em junho. O mercado sabia que o índice cairia este mês, mas não suspeitava que a queda seria tão grande assim. Os prognósticos eram de uma deflação de 0,56%. Se o Focus se debruçar mais seriamente sobre a onda de remarcações para baixo dos preços poderá concluir que suas apostas de IPCA estão exageradamente pessimistas. Se fizer isso, terá de rodar de novo todas as suas outras projeções feitas para o boletim do BC.

O fator externo teve um efeito duplo assimétrico, cujo resultado final deveria ter sido nulo. Se o risco global cresce em decorrência dos conflitos no Iraque, o investidor, assustado, vai atrás num primeiro momento da segurança oferecida pelo mercado secundário de títulos do Tesouro americano. Com a expansão da procura pelas “treasuries”, os juros dos papéis caem, aumentando, num segundo, a atratividade das taxas pagas pelos congêneres brasileiros. O perigo é o petróleo disparar, agravando o déficit externo brasileiro e piorando o resultado do PIB. Mas, em nenhum dos casos, se amplia a possibilidade de calote da dívida.

A variável que de fato poderia afastar os fundos globais do Brasil seria uma alta das taxas longas americanas motivada por resultados mais sólidos acerca da recuperação dos EUA. O rendimento da T-Note de 10 anos, após oscilar entre 2,58% e 2,62%, fechou ontem nos mesmos 2,61% de sexta-feira. Como o aumento da demanda conteve o avanço das taxas, os bons indicadores revelados ontem não fizeram preço. A produção industrial cresceu 0,6% em maio, levemente acima da expectativa de avanço de 0,5% dos analistas. E o índice industrial calculado pelo Fed de Nova York evoluiu de 19,01 em maio para 19,28 em junho, quando o mercado previa queda para 15.

O mercado financeiro dará meio expediente hoje por causa do jogo do Brasil. O último pregão a fechar será o futuro de dólar, às 14 horas. Antes dele, encerram atividades o DI futuro, às 13 horas, e a Bovespa, às 13h30. O dólar à vista segue o horário bancário.

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