‘Alta de 10% ao ano do saldo do crédito é sustentável’, diz Mauricio Molan

O economista-chefe do banco Santander prevê que o crescimento do crédito continuará em ritmo lento em 2015

Por O Dia

O crescimento do crédito arrefeceu neste ano e deve seguir em ritmo lento em 2015. A previsão é do economista-chefe do banco Santander, Mauricio Molan. Para ele, o crédito deve manter alta de 10% ao ano, o que é sustentável mesmo com crescimento menor da economia. A estratégia é trocar dívidas caras e curtas, como cheque especial e cartão de crédito, por mais longas e baratas, como consignado e imobiliário, que reduz o comprometimento da renda, abrindo espaço para novos endividamentos.

Com um cenário ainda incerto mas previsivelmente difícil em 2015, como fica a atividade principal dos bancos, ou seja, o crédito?

Não teremos mais aquele crescimento de anos anteriores, mas uma alta de 10% é sustentável, mesmo com crescimento menor da economia.

Como se dará isso?

O crédito cresce ou pelo aumento da renda e crescimento do país; ou pela troca de dívidas caras e curtas, como cheque especial e cartões de crédito, por mais longas e baratas, como consignado e imobiliário. É isso que permite a redução do comprometimento da renda, ao mesmo tempo em que abre espaço para mais endividamento. E é isso o que está acontecendo, por iniciativa dos bancos, que se tornaram mais cautelosos desde 2012, depois do tombo que levaram com o exageros nas concessões de crédito para veículos. O comprometimento da renda do brasileiro está em torno de 22%, perante 15% nos Estados Unidos e Espanha; em contrapartida, o endividamento, que aqui é de aproximadamente 50%, é três vezes maior naqueles países.

O que explica isso?

A diferença está, exatamente, no tamanho das taxas de juros. Quanto mais altas, e quanto mais curto o prazo do empréstimo, mais altas as prestações, ou seja, mais comprometem a renda das famílias. Cada vez mais, o consignado, inclusive para trabalhadores do setor privado, e empréstimos para imóveis, até quando o bem é simplesmente dado como garantia (como no home equity) tendem a ocupar mais e mais espaço nas carteiras dos bancos. O crédito para veículos, apesar dos excessos cometidos, foi a grande inovação da década passada. Mostrou que quando existe uma garantia boa, o empréstimo pode custar mais barato. O problema é que os carros desvalorizam rapidamente — já os imóveis (e os salários consignados) nem tanto.

E o crédito para empresas, também tem espaço para crescer 10% ao ano?

O endividamento das empresas brasileiras é historicamente baixo, o que é saudável, pois os juros são muito altos. Praticamente metade dos investimentos é feita com recursos próprios, e outra com recursos do BNDES. O mercado de capitais por sua vez responde por muito pouco, menos de 10%. O sistema fica fracionado: os bancos oferecem capital de giro e financiamento a comércio exterior e o BNDES, recursos para investimentos. Os recursos do BNDES são baratos, mas o custo baixo é na verdade fruto de subsídios cruzados, ou seja, alguém paga a conta — a própria sociedade, com a pressão sobre as contas públicas, por exemplo. O espaço para o aumento do crédito para empresas depende de um processo de ajustes macroeconômicos mas também de mudanças estruturais no arcabouço do sistema financeiro, incluindo o desmonte desses subsídios cruzados.

Mas, com crescimento baixo, a demanda por crédito não tende a diminuir?

A discussão sobre o que vem primeiro, a redução da oferta ou a redução da demanda, é difícil mas boa. Tudo indica que o crédito segue a redução da demanda, que ele não é o “driver” da aceleração, apenas acompanha. Ainda há procura por algumas linhas, vide o aumento do crédito imobiliário. No caso das empresas, resolvida a questão que descrevi anteriormente, haverá espaço para contratação de mais crédito para investimentos, principalmente em infraestrutura.

Quais as suas previsões para crescimento, juros, inflação e câmbio no ano que vem? Qual é o cenário com que o banco está trabalhando?

Será um ano difícil. O novo governo terá que apresentar um plano de longo prazo para combater a inflação, ao mesmo tempo que precisa aumentar o superávit e promover mais crescimento — que por sua vez depende do aumento da competitividade. Não haverá espaço para afrouxamento da política monetária. Vai ter que promover um ajuste no câmbio — trabalhamos com uma taxa de R$ 2,65 para 2015, uma inflação de 6,5% e juros básicos de 12,5% ao ano.

Essa é a taxa ideal do dólar para manter o equilíbrio?

Para estabilizar o déficit em conta corrente a 2,5% do PIB, o câmbio deveria estar em R$ 2,70. Mas isso tem reflexos sobre a inflação, não pode ser feito de uma vez. Por outro lado, o real desvalorizado ajuda as exportações. O mundo mudou e está menos favorável aos emergentes. Para crescer 3% ao ano, com população ativa crescendo 1% e produtividade 1%, o Brasil vai precisar de um ajuste cambial, não tem jeito.

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