Educação no país é o novo ‘eldorado’ para estrangeiras

Multinacionais investem na oferta local de softwares para atender ao novo perfil de estudantes e reduzir a evasão de universitários

Por O Dia

Um dos principais motores para o desenvolvimento de qualquer país, a educação enfrenta desafios históricos no Brasil. O resultado dessa equação volta e meia está expresso em pesquisas sobre o setor. Recentemente, o país ocupou a 88ª posição - entre 122 países - no ranking de qualidade da educação do Fórum Econômico Mundial. No mesmo estudo, o Brasil figurou na 57ª colocação no quesito capital humano. A soma desses e tantos outros números é um dos fatores que está atraindo o investimento estrangeiro em um segmento específico no mercado local: a oferta de softwares educacionais.

Betina Von Staa%2C executiva responsável pelo desenvolvimento de negócios Desire2Learn na américa Latina. Murillo Constantino / Agência O Dia

O portfólio dessas empresas envolve desde sistemas de gestão e de ensino à distância até plataformas que incorporam recursos de colaboração, de interação e de análise de desempenho de alunos e professores. Boa parte do interesse dessas multinacionais está concentrada nos segmentos de ensino superior - especialmente nas instituições privadas, que dominam o setor - e de treinamento corporativo.

No nível superior, uma série de componentes está por trás desse interesse. Entre outros fatores, a quadro inclui a ascensão das classes emergentes; os recursos do Programa de Financiamento do Ensino Superior (Fies); e o aumento do volume de estudantes matriculados em universidades. O Brasil saltou de 3,4 milhões de matrículas, em 2002, para pouco mais de 7 milhões em 2012, segundo o Censo da Educação Superior, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

"O Brasil tem universidades com 100 mil alunos. Clientes potenciais desse porte não existem em nenhum outro lugar no mundo. Ao mesmo tempo, temos uma pulverização de instituições menores que precisam se diferenciar para se defender das aquisições. Todo esse cenário abre um campo enorme para o uso de tecnologia", diz Betina von Staa, executiva de desenvolvimento de negócios sênior da Desire2Learn na América Latina. A companhia canadense abriu no fim de 2013, em São Paulo, seu primeiro escritório na América Latina. "No último ano, 8% dos nossos novos negócios globais vieram do Brasil. Para os próximos anos, nós projetamos um crescimento de três dígitos no país", acrescenta Michael Wysocki, vice-presidente de vendas global da companhia.

Um dos pontos que reforçaram essa decisão foi a conquista de três grandes clientes no país, entre eles, a Fundação Getúlio Vargas. Segundo Betina, os três projetos _ que envolvem a adoção de todo o portfólio da empresa - sinalizam uma evolução do mercado local. "Antes, esse segmento estava muito associado aos softwares de educação à distância. Agora, o que temos visto é a procura por pacotes completos para transformar também a aprendizagem presencial".

Segundo as empresas ouvidas pelo Brasil Econômico, a alta taxa de evasão e o perfil dos alunos da nova geração são alguns dos elementos por trás dessa ampliação dos projetos. Sob esse desafio, os fornecedores estão investindo em softwares que permitem, por exemplo, acessar todos os conteúdos e atividades via dispositivos móveis, e em redes pelas quais os alunos compartilham e editam trabalhos com outros estudantes, em tempo real e em diferentes formatos.

A oferta de sistemas analíticos é outra ponta. "É possível cruzar diversos dados das interações dos alunos e identificar, por exemplo, as dificuldades que um estudante está tendo em uma determinada matéria. A partir disso, o professor pode trabalhar um conteúdo personalizado para aquele aluno. O próprio sistema sugere automaticamente alguns exercícios", diz Bruno Weiblen, gerente da americana Blackboard no Brasil. A empresa chegou ao país em 2011, por meio de um acordo com o Grupo A, do qual o executivo é diretor comercial. "Com essa abordagem, a instituição tem mais subsídios para reter seus alunos", diz. Com cerca de 1 milhão de usuários no Brasil, a Blackboard está ampliando sua ofertalocal para diversificar sua base de clientes, formada hoje, em sua maioria, por universidades privadas. No plano das instituições públicas, a empresa está trazendo para o país uma plataforma de software livre. "As universidades públicas têm uma grande base de software livre, por conta dos estímulos do governo para a adoção de sistemas de código aberto", explica. Ao mesmo tempo, a companhia está dobrando seus investimentos em marketing para ampliar a presença de suas tecnologias em sua base instalada de 30 clientes no país.

O ensino superior privado continuará sendo o norte da Desire2Learn em 2014. "É um mercado ainda pouco explorado, diferentemente do mercado corporativo, que é mais concorrido, e do setor público, onde o processo de decisão é mais complexo. Mas vamos ficar atentos a esses setores, bem como em educação básica", diz Betina.

Já a britânica Crossknowledge no Brasil concentra suas fichas na oferta de softwares e conteúdos digitais para o segmento de educação corporativa. A empresa iniciou oficialmente sua operação no país depois de comprar a brasileira Digital SK, em agosto de 2013. "Com a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada - um problema crescente no país -, muitas empresas estão contratando profissionais com potencial e investindo na sua formação. E a tecnologia permite acelerar o preenchimento dessa lacuna, com escala e qualidade", diz Romain Mallard, diretor da Crossknowledge no Brasil.

Entre outros recursos, a empresa conta com uma biblioteca de 17 mil conteúdos digitais, divididos por temas e produzidos em parceria com escolas de negócio em todo o mundo. No Brasil, a companhia possui cerca de 500 mil usuários, dentro de uma base global de 5 milhões.

FGV renova plataforma

Com um histórico de desenvolvimento próprio de sistemas, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) decidiu buscar em 2013 uma nova plataforma reduzir a dependência interna e atender os novos desafios de educação. Depois de avaliar quatro propostas no mercado, a instituição decidiu adotar as plataformas de ensino à distância e gestão de conteúdo da Desire2Learn. "A ideia é aprimorar nossa relação com os alunos e melhorar a preparação e a absorção dos conteúdos, a partir de uma série de análises que vamos conseguir realizar", diz Stavros Xanthopoylos, vice-diretor do Instituto de Desenvolvimento Educacional da FGV. Com previsão de conclusão em dois anos, o projeto está sendo adotado inicialmente entre os 70 mil estudantes dos cursos de educação à distância oferecidos pela instituição. Além do acesso à plataforma, essa fase da iniciativa envolve a capacitação de toda a equipe da FGV. "Estamos tendo muito cuidado para achar um equilíbrio entre o que chamamos de nativos digitais e imigrantes digitais. É natural que alguns tenham uma certa resistência a essas novidades, pois elas transformam totalmente o processo de ensino e de aprendizagem". A fase final envolverá os cerca de 6 mil alunos presenciais da FGV.

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