Engenheiro ocupa vaga de profissionais de outras áreas

Estudo do Ipea mostra que seis em cada dez especialistas não atuam em suas funções típicas

Por O Dia

Rio - Seis em cada dez engenheiros não atuam em sua função típica. A constatação faz parte de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre a inserção de profissionais técnico-científico de Nível Superior no mercado de trabalho. Tomando como base o Censo de 2010 do IBGE, a pesquisa verificou que 59% dos engenheiros trabalham em setores não-típicos, como mercado financeiro e de ensino. Ou seja, apenas 41% estão na própria área.

E quando o levantamento inclui as áreas de Ciências, Tecnologia e Matemática o índice chega a 79% com apenas 21% ocupando postos comuns à profissão. Técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e um dos autores do documento, Paulo Meyer Nascimento destaca que esta realidade é natural. “Afinal, a formação em carreiras como Engenharia, Matemática e Física permite desempenhar atividades de gestão e tantas outras”, avalia.

Formado em Engenharia de Produção%2C Cassiano Farani (de paletó) é empresário e professor do Ibmec. Tem sociedade em dois cafés e numa agência de estratégia em negóciosDivulgação

Nascimento informa ainda que os resultados indicam que, no caso do engenheiro, tende a apresentar maior taxa de ocupação que a média dos profissionais de Nível Superior. “Além disso, esse profissional acaba sendo empregado com maior frequência em postos de trabalho formais (com carteira assinada) e aparece em proporção ligeiramente maior como empregadores do que os profissionais de Nível Superior com formação em outras áreas”, comenta ainda o pesquisador do Ipea.

Especialista em carreiras e professora do Ibmec-RJ, Janaína Ferreira cita alguns fatores que marcam as migrações de áreas, em geral. Ela relata que formações específicas como Engenharia, Matemática e Física possibilitam atuar em atividades distintas, entre elas gestão financeira. “Por exemplo, o mercado financeiro contrata muitos engenheiros pela habilidade adquirida com cálculos ao longo da formação”, explica a especialista.

Os resultados do estudo do Ipea mostram ainda que entre os anos de 2000 e 2010 houve um aumento na concentração de engenheiros em determinadas regiões do país. Se em 2000 havia locais, das regiões Norte, Nordeste, nas quais existia elevada proporção relativa deste profissional, em 2010 a maior parte com formação especializada passou a se concentrar no Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste do Brasil.

O mercado financeiro contrata muitos engenheiros pela habilidade adquirida com cálculos Banco de imagens

Migração apresenta queda desde 2005

O técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, Paulo Meyer Nascimento, diz que a migração do engenheiro para outras profissões vem diminuindo desde a segunda metade da década passada.
“Desde 2005, quando começou o ‘boom’ imobiliário e houve a alta de demanda para de profissionais para obras de infraestrutura do governo federal, a migração para outras áreas desacelerou”, explica Nascimento.

A especialista em carreira do Ibmec-RJ, Janaína Ferreira, segue o mesmo raciocínio do pesquisador do Ipea. Ela diz que a Engenharia foi uma profissão que ficou um longo período sem demanda no Brasil. Janaína conta ainda que somente com o aquecimento da economia nacional nos últimos anos, somado ao crescimento da área de petróleo e gás, a profissão voltou a ser mais valorizada.

“Falava-se até em ‘apagão dos engenheiros’ e, na prática, a Petrobras chegou a recrutar profissionais aposentados para treinar e atender à demanda do seu quadro de pessoal. Isso tudo porque no período de baixa demanda os engenheiros naturalmente migraram para outras áreas, até por uma questão de sobrevivência”, lembra a especialista.

Janaína Ferreira aponta um outro elemento que provoca a migração que não atinge apenas o engenheiro, mas ocorrer em outras profissões: o fato de muitos jovens ingressarem na faculdade.
“Há novatos na universidade com 17 anos de idade. Quando ele não conhece bem todas as opções de escolha de carreira, acaba se identificando com as novas áreas no momento que ingressa no mercado de trabalho. Assim, a vontade de migrar para outra carreira é um processo muito natural”, afirma Janaína.

Não há aspectos negativos com mudança de carreira

A especialista em carreiras Janaína Ferreira não vê aspectos negativos na migração. Ela avalia que é um processo individual e natural na evolução da profissão. “O conhecimento adquirido no período de formação acadêmica gera uma musculatura cerebral”, explica a professora do Ibmec.

Ela diz que o conhecimento será aplicado no dia a dia do trabalho. Mesmo que ele atue em área distinta de conhecimento. “Portanto, não vejo como um fator negativo, nem para a economia nem para o profissional, já que atuar em uma profissão sem estar motivado resultará em baixa produtividade para a empresa e falta de realização do indivíduo”, argumenta a especialista.

O engenheiro de produção Cassiano Farani, de 34 anos, é um bom exemplo de engenheiro que nunca atuou na profissão. Atualmente professor de Empreendedorismo no Ibmec, ele é sócio de dois cafés no Centro do Rio e da 99Canvas, uma agência de estratégia em negócios. “Quando fazia estágio em Engenharia numa empresa de energia elétrica abri meu primeiro negócio. Uma representação comercial. Como passei a ganhar dez vezes mais que o valor do que recebia no estágio e o dobro do salário de meu chefe na empresa, comecei a ver que faria melhor opção em seguir carreira empreendedora”, diz Farani.

O engenheiro, ou melhor, o empresário, lembra que a visão macro de sua profissão de origem permitiu atuar em diversas áreas. “Conheço muitos operadores de mesa do mercado financeiro que são engenheiros. E mesmo maior valorização profissional não faz alguém, como é o meu caso, retornar ou começar do zero numa área só por que foi a de sua formação acadêmica”, analisa.

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