Fãs pagam do bolso para ter projetos de volta

No Brasil, banda Raimundos recorre a financiamento coletivo para lançar álbum após 12 anos; nos EUA, fãs arrecadam R$ 11 milhões para produzir filme baseado em série de TV

Por O Dia

São Paulo - Sucesso nacional nos anos 1990, a banda de rock Raimundos marcou para 2014 sua volta ao mercado de discos, 12 anos depois de seu último álbum de músicas inéditas, “Kavookavala”, de 2002. Cansado das muitas exigências e do pouco investimento das gravadoras, o grupo decidiu recorrer à fidelidade dos fãs, que em 60 dias tiraram do próprio bolso não apenas a verba para a produção do CD mas todo o dinheiro necessário para a divulgação em rádios de “Cantigas de Roda”.

“Nós pedimos R$ 50 mil aos fãs e arrecadamos R$ 123 mil em 60 dias”, comemora Denis Porto,empresário da banda. Com o dinheiro, os integrantes foram para Los Angeles (no estado norte-americano da Califórnia) gravar o álbum.

Os Raimundos voltam esse ano com o CD "Cantigas de Roda"Divulgação

Pedir socorro aos fãs para financiar projetos que o mercado desistiu de bancar é uma ideia nova cada vez mais comum nas plataformas de financiamento coletivo no Brasil e fora dele. Os adeptos vêm crescendo a tal proporção que o Catarse, principal comunidade brasileira de crowdfunding, batizou o fenômeno de “economia da nostalgia”.

Foi graças a ela que 731 pessoas puseram a mão no bolso para o relançamento do Combo Rangers, um quadrinho virtual de paródia aos Power Rangers que fez tanto sucesso no universo nerd entre 1999 e 2003 que na época uma grande editora bancou a impressão de 24 revistas com suas duas temporadas.

“A crise editorial do começo da década fechou muitas revistas, inclusive a minha. Os fãs pediam a volta dela, mas só decidi tentar depois de comprovar a viabilidade do financiamento coletivo”, explica o criador do quadrinho, Fábio Yabu. “Pedi R$ 40 mil e em duas semanas conseguimos R$ 67 mil”, contabiliza ele, que aproveitou o excedente para bancar duas edições de 5 mil exemplares cada, suficiente para satisfazer os fãs e angariar novos ao distribuir o restante em livrarias.

Quase falida, a editora independente de HQs Fantagraphics Books voltou à ativa graças a seus admiratores, que em novembro passado contribuiram com US$ 150 mil (R$ 357 mil) em quatro dias, o que vai garantir a publicação de todos os seus 39 lançamentos previstos para este ano.

“Eu duvido que conseguiria esse dinheiro tão rápido mesmo que tivesse recorrido a um empréstimo”, acredita Yabu. “Aposto que em pouco tempo o crowdfunding será uma alternativa melhor para os criadores do que editais e incentivos governamentais.”

Um dos coordenadores do Catarse, Felipe Caruso, explica a lógica do negócio: “A necessidade de cumprir objetivos comerciais acaba ao cortar intermediários e ligar os realizadores a quem está diretamente interessado na ideia”, diz. “Artistas do passado que construíram uma rede em torno do seu trabalho, mas que perderam a atenção do mercado, podem agora voltar à ativa amparados por essa base de apoiadores.”

O empresário dos Raimundos concorda: “Esse método é mais dinâmico e atual do que ficar contando com as gravadoras. Agora são elas que correm atrás da gente.”

As informações são de Wanderley Preite Sobrinho.


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